Lânguido e patético, entre nuvens esfumaçadas
Num horizonte púrpura e laranja
Onde figuram pequenos grãos prateados.
As marcas em meu rosto combinam com as cores do céu,
O sangue na minha camisa combina com o astro que se põe.
Inspiro mais uma boa dose de fumaça
Que segue apressada a sua caminhada no vácuo do vagão de trem.
Meu coração bombeia todas as toxinas necessárias para meu corpo,
Minha boca é uma chaminé que converte a matéria-prima em produto
E daqui do alto da sombra que se arrasta debaixo de um viaduto
Eu - como bom defunto - me decomponho e me uno a todo subproduto
Da sociedade doente que se alastra por todo reduto
Dessa patética cidade.
Repousam meus loiros cabelos sobre o lixo úmido,
As costas contra o chão frio que aquece meu coração
Doem tanto quanto dói meu espírito, que me rasga o peito
Num grito sufocado e inaudível:
Uma tímida fricativa pesarosa entre meus lábios
Após o mecânico trago de outro cigarro
Que deposita suas cinzas sobre meu corpo embalsamado.
Lá em cima as silentes sentinelas vigiam o mundo,
Testemunhas perpétuas dos crimes do passado,
Da traição de Judas à adaga cravada na patela de César;
O rapto de Helena; As acusações absurdas de Bentinho;
Os seis milhões de mortos na Europa;
Os três milhões de mortos em Bengala;
Os mais de três mil no Chile;
As caravelas e as chibatas, as espoliações e as pilhagens;
A palavra da Igreja. O papa. Os reis e patrões.
Silentes, com seu tímido brilho prateado,
Testemunhas do presente e do porvir.
Mudas.
Quietas.
Cúmplices.
Um dia, não mais o laranja e o púrpura do velório do astro-rei
Serão maculados pela ingrata presença das choradeiras do crepúsculo;
Não mais haverão grãos de fina beleza manchada de sangue no firmamento.
Tomarei eu impulso nas sombras que sustentam esse mundo, que me erguerão
E me colocarão face a face com tão pútrida e infame beleza.
Tomarei-as uma a uma em minhas mãos e, com os punhos imundos de seu pó estelar,
Golpearei uma a uma em direção à então cravejada superfície terrestre.
Não serão as constelações então a lembrança de tamanha frialdade,
Não será Órion o arauto da impunidade.
Serão elas as lúgubres lápides luminosas de tudo que tinge de ruim essa história:
Judas e Brutus, Páris, Pinochet, Winston, Adolf e Nicolau;
Bandeirantes e pioneiros; Pastores e profetas, papas, fiéis e benzedeiros;
Reis e a nata dos burgos; Patrões, senhores e líderes supremos!
Um a um, sob o peso de um milhão de galáxias,
Sepultados sob a chuva de meteoros que nos trará a purificação.
Um dia, a anos-luz de toda essa escuridão.