Rói meus pulmões a fumaça densa e seca do primeiro cigarro da manhã.
Eram três horas quando eu acordei depois de sonhar com você.
Eram três horas quando saí de um universo onde você existia para voltar à realidade
Para voltar à sua ausência
Quem nunca se sentou em um quarto só
No escuro, só, às três da madrugada
As lágrimas represadas detrás dos olhos
O grito sufocado e aprisionado na garganta
As mãos trêmulas sobre a cabeça
Os cabelos desgrenhados
O olhar perdido
O peito prestes a explodir e levar consigo toda Nagasaki
A alma retorcida
Sugada
Escorrida
O silêncio da demência rasgando a noite em dez
os dedos inquietos batucando sobre a mesa
A caneta no papel
As cicatrizes nos braços e nos pulsos e na alma
E a sanidade se esvaindo, aos poucos e então aos montes
E a sobriedade sendo suprimida,
com fumo
com álcool
com querosene
com poesia
E a sua ausência tomando cada vez mais espaço
Até ontem eu tinha algo
Hoje, sou cheio do vazio que você deixou
E o que mais me dói
Saber que você me esvaziou e de mim, não levou nada.
Me deixou carcaça
E se foi, fantasma.
quarta-feira, 19 de agosto de 2015
quarta-feira, 12 de agosto de 2015
Vocês que acham que são loucos
Vocês que acham que são loucos
não viram a cara da loucura, não sabem o que é o desespero que faz rir,
nunca gargalharam sozinhos num quarto enquanto o coração sangra e nunca correram pela madrugada pra lugar nenhum só para estar em movimento,
nunca aceitaram a solidão e nunca aceitaram a loucura e nunca aceitaram a vergonha e nunca aceitaram a dor
e nunca dispararam rumo ao sol e nunca galgaram rumo à treva e nunca dormiram ao relento e nunca acordaram perdidos
e sempre souberam amanhã ontem hoje e daqui a dez e vinte e cinquenta anos e sempre tiveram planos de carreira, de vida, de saúde, de automóvel,
sempre foram seguros e nunca conheceram o terror e o desespero de noite e sozinhos e verdadeiramente sozinhos,
vocês não sabem o que é três ou quatro ou cinco noites viradas acordado assombrado por si mesmo
vocês não sabem o que é se afogar em álcool ressuscitar no dia seguinte e se afogar em fumaça,
afogando-se e asfixiando-se não por prazer, não por querer, mas ser compulsoriamente compelido
por algo maior que si e que o mundo, por esse monstro de ócio e desespero e solitude e ranger de dentes e maxilares travados
e mãos suadas e pupilas dilatadas e roupas rasgadas e egos rasgados à meia noite num quarto de motel mal-iluminado no meio do centro-baixo da cidade-rasgada,
cinza e verde e vermelho rasgando a madrugada de asfalto e de fumaça e de consciência leve e perdida e perturbada,
vocês não sabem o que é vagar sem caminho às quatro da manhã de terça-feira sob os viadutos absolutos que reinam na capital,
se perguntando onde vão descolar a próxima dose de qualquer bebida que seja suficientemente barata e suficientemente forte e suficientemente ruim,
vocês não sabem o que é sentir o vazio dentro de si e o vazio em torno de si e discutir consigo mesmo de dia e de noite de tarde,
na aurora e no crepúsculo da alma que morre e suicida e homicida e vai e volta e se afoga
em paixões vãs de uma noite só ou de duas noites ou de semanas ou de noites perdidas ou noites dispersas,
não sabem o que é querer ver o fogo consumir o mundo e consumir a si e querer virar névoa ou cinza e querer viver e transceder
o mundo e o céu e o inferno que é viver entre aqueles que desejam o céu e não vivem o mundo,
não sabem como é a loucura que é se sentar, às quatro e meia da madrugada, dois dias acordado, bebericando a segunda ou a sétima garrafa de vinho barato
e fumando o trigentésimo maço de cigarro do dia e se olhando no espelho sobre sua coxa e se perguntando o por quê de tudo e o por quê de si
o porquê de estar ali dialogando com o papel e escrevendo e lendo e criticando e sentindo mais do que é saudável sentir
e se perdendo nos cabelos e nos corpos das moças da meia-noite e dos rapazes da meia-noite
e se encontrando nas mãos e bocas e gemidos e no suor das moças e dos rapazes da meia-noite
que viveram mais do que deveriam e amanheceram, ainda vivos, ainda vazios, ao seu lado quando o sol rasga o quarto
e rasga o sono e o quarto que rasga o sono que rasga a alma que rasga o quarto
que te força a levantar, café, banho, cigarro, uísque, adeus, cama, cigarro, uísque,
e o tempo passa e o tempo não passa e quando você dá por si o tempo foi
e a loucura fica aqui, não no happy-hour de seus pseudo-botecos de seus bairros elitistas com cerveja de dois dígitos e cigarros de menta e cafés com vanilla
e de bebidas com fruta e com vocabulário importado de dentro de suas agências de merda que operam full-time e on demand
e que te pagam o suficiente pra vocês acharem que suas vidas não são uma merda e que te pagam o suficiente para vender sua alma
e dentro dos seus carros de preço inflacionado e dentro de seus trânsitos e suas gaiolas no alto de monolitos com um número suficiente de móveis e insuficiente de paixões
e corações vazios demais e ora cheios demais e que amam só com o coração e não com o corpo inteiro e que amam só o corpo pela metade e não o coração e o corpo inteiro
e que riem da desgraça do outros sem serem capaz de rirem da própria merda
e que se gabam do próprio feito e invejam o feito do outro
e que acham que há algum mérito em ser bom e algum mérito em fazer o que fazem e que há algum mérito em viver dentro de um automóvel e de um cercadinho privado e de uma ilusão agridoce
e que não sabem o que é loucura e acham que é loucura fazer bobagem e perder tempo e ser vazio e ser irresponsável e ser como todo mundo que acha que é louco mas nunca viram a cara da loucura
que te acorda e não te deixa dormir e te dorme e não deixa acordar e que sangra que conforta que entorpece que volta e volta e vem e volta
e que você faz questão que volte e que sangre e que asfixie e que triture por quê é a dor que compõe e é a loucura que compõe
e vocês que acham que são loucos na verdade estão mesmo loucos e doentes e perdidos e fodidos,
e pra loucura que é a loucura de vocês basta um filho da puta pra desequilibrar essa loucura construída em cima de rótulos e clichês pra fazer desmoronar essa brincadeira de loucura
essa brincadeira de ser impulsivo e pra fazer desmoronar esse teatro que é essa loucura frágil e estruturada e organizada e com vergonha e com sanidade e com graça,
pra vocês que acham que são loucos,
vocês são loucos só nessa loucura high-society, engravatados e perfumados e sóbrios e sãos e onde os loucos estão enterrados sob a cidade e sob o asfalto e sob o lixo,
por quê daqui de baixo nossa loucura é nossa lucidez e tua lucidez é a nossa loucura.
E daqui de baixo as coisas fazem muito mais sentido.
não viram a cara da loucura, não sabem o que é o desespero que faz rir,
nunca gargalharam sozinhos num quarto enquanto o coração sangra e nunca correram pela madrugada pra lugar nenhum só para estar em movimento,
nunca aceitaram a solidão e nunca aceitaram a loucura e nunca aceitaram a vergonha e nunca aceitaram a dor
e nunca dispararam rumo ao sol e nunca galgaram rumo à treva e nunca dormiram ao relento e nunca acordaram perdidos
e sempre souberam amanhã ontem hoje e daqui a dez e vinte e cinquenta anos e sempre tiveram planos de carreira, de vida, de saúde, de automóvel,
sempre foram seguros e nunca conheceram o terror e o desespero de noite e sozinhos e verdadeiramente sozinhos,
vocês não sabem o que é três ou quatro ou cinco noites viradas acordado assombrado por si mesmo
vocês não sabem o que é se afogar em álcool ressuscitar no dia seguinte e se afogar em fumaça,
afogando-se e asfixiando-se não por prazer, não por querer, mas ser compulsoriamente compelido
por algo maior que si e que o mundo, por esse monstro de ócio e desespero e solitude e ranger de dentes e maxilares travados
e mãos suadas e pupilas dilatadas e roupas rasgadas e egos rasgados à meia noite num quarto de motel mal-iluminado no meio do centro-baixo da cidade-rasgada,
cinza e verde e vermelho rasgando a madrugada de asfalto e de fumaça e de consciência leve e perdida e perturbada,
vocês não sabem o que é vagar sem caminho às quatro da manhã de terça-feira sob os viadutos absolutos que reinam na capital,
se perguntando onde vão descolar a próxima dose de qualquer bebida que seja suficientemente barata e suficientemente forte e suficientemente ruim,
vocês não sabem o que é sentir o vazio dentro de si e o vazio em torno de si e discutir consigo mesmo de dia e de noite de tarde,
na aurora e no crepúsculo da alma que morre e suicida e homicida e vai e volta e se afoga
em paixões vãs de uma noite só ou de duas noites ou de semanas ou de noites perdidas ou noites dispersas,
não sabem o que é querer ver o fogo consumir o mundo e consumir a si e querer virar névoa ou cinza e querer viver e transceder
o mundo e o céu e o inferno que é viver entre aqueles que desejam o céu e não vivem o mundo,
não sabem como é a loucura que é se sentar, às quatro e meia da madrugada, dois dias acordado, bebericando a segunda ou a sétima garrafa de vinho barato
e fumando o trigentésimo maço de cigarro do dia e se olhando no espelho sobre sua coxa e se perguntando o por quê de tudo e o por quê de si
o porquê de estar ali dialogando com o papel e escrevendo e lendo e criticando e sentindo mais do que é saudável sentir
e se perdendo nos cabelos e nos corpos das moças da meia-noite e dos rapazes da meia-noite
e se encontrando nas mãos e bocas e gemidos e no suor das moças e dos rapazes da meia-noite
que viveram mais do que deveriam e amanheceram, ainda vivos, ainda vazios, ao seu lado quando o sol rasga o quarto
e rasga o sono e o quarto que rasga o sono que rasga a alma que rasga o quarto
que te força a levantar, café, banho, cigarro, uísque, adeus, cama, cigarro, uísque,
e o tempo passa e o tempo não passa e quando você dá por si o tempo foi
e a loucura fica aqui, não no happy-hour de seus pseudo-botecos de seus bairros elitistas com cerveja de dois dígitos e cigarros de menta e cafés com vanilla
e de bebidas com fruta e com vocabulário importado de dentro de suas agências de merda que operam full-time e on demand
e que te pagam o suficiente pra vocês acharem que suas vidas não são uma merda e que te pagam o suficiente para vender sua alma
e dentro dos seus carros de preço inflacionado e dentro de seus trânsitos e suas gaiolas no alto de monolitos com um número suficiente de móveis e insuficiente de paixões
e corações vazios demais e ora cheios demais e que amam só com o coração e não com o corpo inteiro e que amam só o corpo pela metade e não o coração e o corpo inteiro
e que riem da desgraça do outros sem serem capaz de rirem da própria merda
e que se gabam do próprio feito e invejam o feito do outro
e que acham que há algum mérito em ser bom e algum mérito em fazer o que fazem e que há algum mérito em viver dentro de um automóvel e de um cercadinho privado e de uma ilusão agridoce
e que não sabem o que é loucura e acham que é loucura fazer bobagem e perder tempo e ser vazio e ser irresponsável e ser como todo mundo que acha que é louco mas nunca viram a cara da loucura
que te acorda e não te deixa dormir e te dorme e não deixa acordar e que sangra que conforta que entorpece que volta e volta e vem e volta
e que você faz questão que volte e que sangre e que asfixie e que triture por quê é a dor que compõe e é a loucura que compõe
e vocês que acham que são loucos na verdade estão mesmo loucos e doentes e perdidos e fodidos,
e pra loucura que é a loucura de vocês basta um filho da puta pra desequilibrar essa loucura construída em cima de rótulos e clichês pra fazer desmoronar essa brincadeira de loucura
essa brincadeira de ser impulsivo e pra fazer desmoronar esse teatro que é essa loucura frágil e estruturada e organizada e com vergonha e com sanidade e com graça,
pra vocês que acham que são loucos,
vocês são loucos só nessa loucura high-society, engravatados e perfumados e sóbrios e sãos e onde os loucos estão enterrados sob a cidade e sob o asfalto e sob o lixo,
por quê daqui de baixo nossa loucura é nossa lucidez e tua lucidez é a nossa loucura.
E daqui de baixo as coisas fazem muito mais sentido.
domingo, 9 de agosto de 2015
O que ficou
Eu não te deixei nada.
Nada senão um fantasma habitando sua cozinha na segunda-feira de manhã,
preparando café forte, mal passado e sem açúcar, resmungando e procurando
a merda do meu analgésico que eu sempre deixava no mesmo lugar.
Nada. Em compensação
ficou com você, na primeira gaveta do teu criado mudo, um pedaço do meu coração,
ainda ensanguentado e ainda pulsando, ainda sangrando
ainda perdido.
Há um espaço vazio na minha cama, há um espaço vazio no banco do passageiro,
há um espaço vazio na sexta de noite e no sábado e no domingo
(e na segunda e na terça e na quarta e na quinta)
e nas manhãs cinzentas e frias e nas noites arrastadas
e nas tardes ensolaradas derretendo sobre o sofá verde
e há espaços preenchidos nos copos de uísque e vinho e bourbon e cerveja e vodka e cachaça,
e depois de você, passou tanta gente,
e as pessoas vem e vão,
e vem e vão,
e vem e vão,
e vem em vão
e eu fico também em vão mas não vou,
e o tempo passa mas não passa, as coisas mudam mas aqui as coisas só se bagunçam,
e eu pediria perdão, mas eu sei que fiz o certo.
Perceba você isso um dia ou não.
Nada senão um fantasma habitando sua cozinha na segunda-feira de manhã,
preparando café forte, mal passado e sem açúcar, resmungando e procurando
a merda do meu analgésico que eu sempre deixava no mesmo lugar.
Nada. Em compensação
ficou com você, na primeira gaveta do teu criado mudo, um pedaço do meu coração,
ainda ensanguentado e ainda pulsando, ainda sangrando
ainda perdido.
Há um espaço vazio na minha cama, há um espaço vazio no banco do passageiro,
há um espaço vazio na sexta de noite e no sábado e no domingo
(e na segunda e na terça e na quarta e na quinta)
e nas manhãs cinzentas e frias e nas noites arrastadas
e nas tardes ensolaradas derretendo sobre o sofá verde
e há espaços preenchidos nos copos de uísque e vinho e bourbon e cerveja e vodka e cachaça,
e depois de você, passou tanta gente,
e as pessoas vem e vão,
e vem e vão,
e vem e vão,
e vem em vão
e eu fico também em vão mas não vou,
e o tempo passa mas não passa, as coisas mudam mas aqui as coisas só se bagunçam,
e eu pediria perdão, mas eu sei que fiz o certo.
Perceba você isso um dia ou não.
terça-feira, 21 de julho de 2015
Fábio
Chegou em casa cansado. A pressão caíra durante o dia, ele teve tonturas e os exames ainda não tinham chegado do médico. Isso tudo só se somava à tristeza e às crises de ansiedade que sentia diariamente.
Fábio estava doente, já fazia um tempo, e se convencera: não havia cura.
E foi assim, então, que Fábio decidiu: iria dormir.
E sempre que a tristeza batia mais pesada ou que as dores acometiam com mais intensidade, ele se recolhia ao seu quarto. Debaixo das cobertas, com os olhos cerrados, se concentrava em adormecer. E adormecia. Respirava pesadamente e dormia profundamente - sequer sonhava. Acordava zonzo, pouco disposto, na verdade. Mas acordava melhor - não acordava bem, mas acordava melhor.
E assim foi levando.
Nos primeiros dias, não teve lá grandes problemas.
Percebeu que, devido à instabilidade de seus humores e dores, seu sono cada vez mais se prolongava. O que antes eram cochilos de vinte ou quarenta minutos agora eram sonos que passavam de duas horas. Três, quatro horas.
Percebeu que seu apetite aumentara durante a madrugada, e passou a fazer uma única refeição por dia - a única que tinha tempo de fazer, e por isso comia em demasia.
Estocara a geladeira com frango e peixe congelado e cozinhava preguiçosamente às duas e meia da manhã, sozinho e apático. Comia aquela refeição triste e sem sabor. Voltava para a cama triste e acordava dia seguinte, sem sabor.
Ia trabalhar cansado, com os ombros pesados. Antes, Fábio dormia entre seis e oito horas diárias. Agora, ele dormia sempre que podia, ultrapassando as doze horas de sono.
Antes, Fábio conversava com as pessoas e se importava. Agora não conversa e tampouco se importa com qualquer coisa. Não lê mais, nem vê TV. Aos poucos, foi se isolando mais e mais.
Aos poucos, o mundo foi-se tornando mais e mais hostil.
Aos poucos, as dores e as tristezas foram dando lugar à sonolência e à letargia.
Aos finais de semana, Fábio não aparecia. Ficava trancado em seu quarto apenas dormindo e, quando não conseguia pegar no sono, corria à farmácia para comprar qualquer remédio que o induzisse - passou a ter um relacionamento sério com Dimenidrinato, depois passou para Clonazepam, Diazepam, Zolpidem, Lorazepam e Bromazepam.
Seus olhos, que antes eram apenas cansados, pareciam petrificados.
No entanto, Fábio jurava estar bem. Sempre que perguntado, dizia estar, no máximo, com um pouco de sono ou "cansado com umas coisas que tem acontecido aí".
O tempo passou e Fábio tirou férias. E, enfim, poderia passar trinta dias inteiros viajando em seu quarto, com as janelas e portas fechadas, só e sonolento.
Chegou em casa naquela sexta-feira e tirou os telefones da tomada. O celular, desligou e deixou sobre a mesa. Tirou os sapatos e as meias, colocou-as dentro do calçado e o abandonou ao pé da escada. A gravata, largou pendurada no corrimão, desabotoou a camisa sem pressa, mas ansioso, e deixou-a vestir o encosto da cadeira. Jogou o cinto ao chão e as calças no cesto. Trancara a porta sem pressa, encheu um copo d'água da torneira mesmo e deixou-o na mesa de cabeceira. Checou a geladeira para ver se tinha comida para a madrugada. Cerrou as janelas e fechou as cortinas, olhou para seu leito e deu um suspiro aliviado. Deitou-se e fechou os olhos, sorrindo levemente com o canto da boca.
O coração andava apertado ainda, mas o sorriso insistia no canto de seus lábios - teimoso e irredutível, sempre invadia seu dia aquele sorriso fora de hora.
O quarto escuro ficou cada vez mais escuro, a escuridão foi se adensando e a respiração foi ficando mais profunda. O silêncio do quarto foi tomando as ruas conforme tomava, também, os pensamentos de Fábio.
Adormeceu.
Trinta dias depois, Fábio não apareceu no trabalho.
Fábio, que prometeu que sempre que doesse, dormiria.
O gerente ligou, sem sucesso. O telefone celular estava desligado, assim como o telefone residencial.
A empresa tentou entrar em contato, mas Fábio não respondia aos e-mails.
Nas redes sociais, nada. Por fim, acionaram as autoridades.
O carro estava na garagem, com uma leve camada de poeira sobre o capô. A porta estava aberta. O par de sapatos repousava ao pé da escada. O corrimão ostentava sua gravata e a camisa ainda estava sobre a cadeira. Subiram as escadas e empurraram a porta do quarto, que estava entreaberta. Lá dentro, no denso escuro do quarto, não encontraram nada - apenas a cama bagunçada, a janela ainda trancada e as cortinas ainda fechadas. Um dos oficiais gritou da cozinha, e todos desceram para averiguar do que se tratava. O piso estava molhado ainda, a geladeira estava aberta e o freezer derretera, inundando o cômodo. Ao inspecionarem o ambiente, notaram as caixas de benzodiazepínicos e barbitúricos jogadas sobre a pia. A maioria, ainda cheio. A geladeira, vazia.
O caso de Fábio nunca fora solucionado.
Alguns apostariam em suicídio, não estivessem os remédios todos na casa ainda.
Alguns dizem que Fábio dormia tanto que virou, enfim, sonho.
Outros dizem até - e eu sou, particularmente, fã desta versão - que Fábio hibernara por trinta dias inteiros, e que, ao acordar, havia ele mesmo se transformado em um enorme urso pardo, que comera todo o alimento da geladeira e que teria ido embora para viver na floresta.
Se vocês me perguntarem, eu fico com essa última. E torço para que ele tenha encontrado uma vida melhor caçando salmão nos rios e dormindo por meses.
Lembro-me que, semanas depois de seu desaparecimento, foi noticiado a presença de um urso pardo percorrendo uma das principais rodoviais do país. O animal foi capturado e enviado para uma reserva florestal.
Enfim, são apenas estórias.
A mesa dele aqui no escritório já foi ocupada por outro funcionário, e sua casa já foi alugada por outra pessoa.
E eu apenas aprendi que se você não lidar com suas dores e tristezas, das duas uma: ou você é consumido por elas e perde tudo que a vida te reserva, ou se transforma em um grande urso pardo e tem a chance de recomeçar sua vida n'outro lugar.
O Fábio sempre teve muita sorte.
E eu, sempre tive insônia.
Fábio estava doente, já fazia um tempo, e se convencera: não havia cura.
E foi assim, então, que Fábio decidiu: iria dormir.
E sempre que a tristeza batia mais pesada ou que as dores acometiam com mais intensidade, ele se recolhia ao seu quarto. Debaixo das cobertas, com os olhos cerrados, se concentrava em adormecer. E adormecia. Respirava pesadamente e dormia profundamente - sequer sonhava. Acordava zonzo, pouco disposto, na verdade. Mas acordava melhor - não acordava bem, mas acordava melhor.
E assim foi levando.
Nos primeiros dias, não teve lá grandes problemas.
Percebeu que, devido à instabilidade de seus humores e dores, seu sono cada vez mais se prolongava. O que antes eram cochilos de vinte ou quarenta minutos agora eram sonos que passavam de duas horas. Três, quatro horas.
Percebeu que seu apetite aumentara durante a madrugada, e passou a fazer uma única refeição por dia - a única que tinha tempo de fazer, e por isso comia em demasia.
Estocara a geladeira com frango e peixe congelado e cozinhava preguiçosamente às duas e meia da manhã, sozinho e apático. Comia aquela refeição triste e sem sabor. Voltava para a cama triste e acordava dia seguinte, sem sabor.
Ia trabalhar cansado, com os ombros pesados. Antes, Fábio dormia entre seis e oito horas diárias. Agora, ele dormia sempre que podia, ultrapassando as doze horas de sono.
Antes, Fábio conversava com as pessoas e se importava. Agora não conversa e tampouco se importa com qualquer coisa. Não lê mais, nem vê TV. Aos poucos, foi se isolando mais e mais.
Aos poucos, o mundo foi-se tornando mais e mais hostil.
Aos poucos, as dores e as tristezas foram dando lugar à sonolência e à letargia.
Aos finais de semana, Fábio não aparecia. Ficava trancado em seu quarto apenas dormindo e, quando não conseguia pegar no sono, corria à farmácia para comprar qualquer remédio que o induzisse - passou a ter um relacionamento sério com Dimenidrinato, depois passou para Clonazepam, Diazepam, Zolpidem, Lorazepam e Bromazepam.
Seus olhos, que antes eram apenas cansados, pareciam petrificados.
No entanto, Fábio jurava estar bem. Sempre que perguntado, dizia estar, no máximo, com um pouco de sono ou "cansado com umas coisas que tem acontecido aí".
O tempo passou e Fábio tirou férias. E, enfim, poderia passar trinta dias inteiros viajando em seu quarto, com as janelas e portas fechadas, só e sonolento.
Chegou em casa naquela sexta-feira e tirou os telefones da tomada. O celular, desligou e deixou sobre a mesa. Tirou os sapatos e as meias, colocou-as dentro do calçado e o abandonou ao pé da escada. A gravata, largou pendurada no corrimão, desabotoou a camisa sem pressa, mas ansioso, e deixou-a vestir o encosto da cadeira. Jogou o cinto ao chão e as calças no cesto. Trancara a porta sem pressa, encheu um copo d'água da torneira mesmo e deixou-o na mesa de cabeceira. Checou a geladeira para ver se tinha comida para a madrugada. Cerrou as janelas e fechou as cortinas, olhou para seu leito e deu um suspiro aliviado. Deitou-se e fechou os olhos, sorrindo levemente com o canto da boca.
O coração andava apertado ainda, mas o sorriso insistia no canto de seus lábios - teimoso e irredutível, sempre invadia seu dia aquele sorriso fora de hora.
O quarto escuro ficou cada vez mais escuro, a escuridão foi se adensando e a respiração foi ficando mais profunda. O silêncio do quarto foi tomando as ruas conforme tomava, também, os pensamentos de Fábio.
Adormeceu.
***
Fábio, que prometeu que sempre que doesse, dormiria.
O gerente ligou, sem sucesso. O telefone celular estava desligado, assim como o telefone residencial.
A empresa tentou entrar em contato, mas Fábio não respondia aos e-mails.
Nas redes sociais, nada. Por fim, acionaram as autoridades.
O carro estava na garagem, com uma leve camada de poeira sobre o capô. A porta estava aberta. O par de sapatos repousava ao pé da escada. O corrimão ostentava sua gravata e a camisa ainda estava sobre a cadeira. Subiram as escadas e empurraram a porta do quarto, que estava entreaberta. Lá dentro, no denso escuro do quarto, não encontraram nada - apenas a cama bagunçada, a janela ainda trancada e as cortinas ainda fechadas. Um dos oficiais gritou da cozinha, e todos desceram para averiguar do que se tratava. O piso estava molhado ainda, a geladeira estava aberta e o freezer derretera, inundando o cômodo. Ao inspecionarem o ambiente, notaram as caixas de benzodiazepínicos e barbitúricos jogadas sobre a pia. A maioria, ainda cheio. A geladeira, vazia.
O caso de Fábio nunca fora solucionado.
Alguns apostariam em suicídio, não estivessem os remédios todos na casa ainda.
Alguns dizem que Fábio dormia tanto que virou, enfim, sonho.
Outros dizem até - e eu sou, particularmente, fã desta versão - que Fábio hibernara por trinta dias inteiros, e que, ao acordar, havia ele mesmo se transformado em um enorme urso pardo, que comera todo o alimento da geladeira e que teria ido embora para viver na floresta.
Se vocês me perguntarem, eu fico com essa última. E torço para que ele tenha encontrado uma vida melhor caçando salmão nos rios e dormindo por meses.
Lembro-me que, semanas depois de seu desaparecimento, foi noticiado a presença de um urso pardo percorrendo uma das principais rodoviais do país. O animal foi capturado e enviado para uma reserva florestal.
Enfim, são apenas estórias.
A mesa dele aqui no escritório já foi ocupada por outro funcionário, e sua casa já foi alugada por outra pessoa.
E eu apenas aprendi que se você não lidar com suas dores e tristezas, das duas uma: ou você é consumido por elas e perde tudo que a vida te reserva, ou se transforma em um grande urso pardo e tem a chance de recomeçar sua vida n'outro lugar.
O Fábio sempre teve muita sorte.
E eu, sempre tive insônia.
quinta-feira, 9 de julho de 2015
Porquê eu te quero inteira
Eu quero o seu silêncio.
Inquieto.
Ofegante.
Saciado.
Eu quero sua respiração pesada,
acelerada,
cortando
o quarto em dois.
Eu quero o silêncio dos teus olhos.
Inquietos.
Famintos.
Esfíngicos.
Eu quero o peso do teu corpo,
Metrônomo,
Unindo
Nós dois.
Eu quero o silêncio dos teus beijos, plenos
De torpor,
De calor,
De amor.
Eu quero a leveza do teu sono, que
Preenche
O vazio
Dentro de nós dois.
Eu quero o seu silêncio.
Eu quero.
O seu.
Silêncio.
sexta-feira, 19 de junho de 2015
Fantasma II
O João começou a falar. O Pedro só ouvia. O Beto dava risada.
Eu só tava interessado na cerveja.
Faz quanto tempo já?
Dois anos? Três anos?
Eu não sei. Me recusa a fazer essa conta. Foi mais do que devia.
Enquanto a terceira garrafa seca, eu me pergunto se um dia você vai me perdoar.
Aliás, deixe-me começar do começo.
Eu, Pedro, João e Beto fomos pro bar. Um bar aqui no centro velho, perto daquele bar em que eu ia com Você.
Eu caminhei leve. Eu lembro de você sempre que passamos por aqui.
Sentamos no bar e começamos a conversar e a beber.
O bar, como sempre, tá cheio. Como sempre, cheio de gente jovem.
Eu comecei a beber e me calei, de súbito.
De súbito, eu pensei ter visto você.
Foi rápido.
Ela passou depressa, foi até o balcão pedir mais cerveja.
Ela, do alto de seu metro e setenta? Sessenta e cinco?
Foi rápido, eu mal consegui vê-la, e por um momento pensei que era você.
Faz o quê? Três anos que eu fui embora? Três anos que eu morri na sua vida?
Eu, que morri sem deixar lápide, sem te dar o direito de uma despedida decente.
Eu roubei teu direito de velar meu corpo.
Sem lápide, sem epitáfio.
Virei cinzas da noite pro dia.
Digo... A última vez que nos vimos, lembra? Eu sabia que seria uma despedida, mas não te contei.
Será que você vai me perdoar por isso algum dia?
Aliás, será que você vai entender isso algum dia?
No alto da alcoolemia proporcionada pela quinta garrafa, eu começo a me afogar em nosso passado.
Em tantas pontas soltas que ficarão soltas pra sempre.
Em tantos assuntos inacabados e beijos interrompidos.
Em tantas promessas sumariamente quebradas.
Você nunca vai me entender. Eu fiz o que eu tinha que fazer.
E eu pago o preço por isso.
Dói. E não há cigarro, não há bebida, não há droga que me faça aceitar que tinha que ser assim.
Eu não tenho perdão.
Eu nem consigo imaginar... Sabe, você sempre foi forte. E eu sempre contei com isso para me deixar com um pouco menos de remorso.
Você sempre foi tão leve, solta e independente, que eu pensei que não ia doer em você.
E, na verdade, eu não sei se doeu - nem quanto doeu.
Eu sei que não importa em quantos maços eu me afogue, eu não consigo parar de me culpar.
Eu espero que um dia você possa me entender e me perdoar.
Eu espero que um dia eu tenha paz.
Você passou de novo em direção ao balcão.
Emudeci.
- Tá olhando a mina ali? - o Beto perguntou, com um sorriso de canto de boca.
- Quem é que você tá olhando, hein? - ele indagou.
- Um fantasma - respondi.
Eu só tava interessado na cerveja.
Faz quanto tempo já?
Dois anos? Três anos?
Eu não sei. Me recusa a fazer essa conta. Foi mais do que devia.
Enquanto a terceira garrafa seca, eu me pergunto se um dia você vai me perdoar.
Aliás, deixe-me começar do começo.
Eu, Pedro, João e Beto fomos pro bar. Um bar aqui no centro velho, perto daquele bar em que eu ia com Você.
Eu caminhei leve. Eu lembro de você sempre que passamos por aqui.
Sentamos no bar e começamos a conversar e a beber.
O bar, como sempre, tá cheio. Como sempre, cheio de gente jovem.
Eu comecei a beber e me calei, de súbito.
De súbito, eu pensei ter visto você.
Foi rápido.
Ela passou depressa, foi até o balcão pedir mais cerveja.
Ela, do alto de seu metro e setenta? Sessenta e cinco?
Foi rápido, eu mal consegui vê-la, e por um momento pensei que era você.
Faz o quê? Três anos que eu fui embora? Três anos que eu morri na sua vida?
Eu, que morri sem deixar lápide, sem te dar o direito de uma despedida decente.
Eu roubei teu direito de velar meu corpo.
Sem lápide, sem epitáfio.
Virei cinzas da noite pro dia.
Digo... A última vez que nos vimos, lembra? Eu sabia que seria uma despedida, mas não te contei.
Será que você vai me perdoar por isso algum dia?
Aliás, será que você vai entender isso algum dia?
No alto da alcoolemia proporcionada pela quinta garrafa, eu começo a me afogar em nosso passado.
Em tantas pontas soltas que ficarão soltas pra sempre.
Em tantos assuntos inacabados e beijos interrompidos.
Em tantas promessas sumariamente quebradas.
Você nunca vai me entender. Eu fiz o que eu tinha que fazer.
E eu pago o preço por isso.
Dói. E não há cigarro, não há bebida, não há droga que me faça aceitar que tinha que ser assim.
Eu não tenho perdão.
Eu nem consigo imaginar... Sabe, você sempre foi forte. E eu sempre contei com isso para me deixar com um pouco menos de remorso.
Você sempre foi tão leve, solta e independente, que eu pensei que não ia doer em você.
E, na verdade, eu não sei se doeu - nem quanto doeu.
Eu sei que não importa em quantos maços eu me afogue, eu não consigo parar de me culpar.
Eu espero que um dia você possa me entender e me perdoar.
Eu espero que um dia eu tenha paz.
Você passou de novo em direção ao balcão.
Emudeci.
- Tá olhando a mina ali? - o Beto perguntou, com um sorriso de canto de boca.
- Quem é que você tá olhando, hein? - ele indagou.
- Um fantasma - respondi.
quinta-feira, 18 de junho de 2015
Diálogos #2
- Pois bem - ele indagou, apoiando levemente o queixo sobre o polegar da mão direita, cujo cotovelo espetava o braço de couro marrom-escuro da cadeira do consultório - O que acontece?
O Dr. Tristão - sim, esse é o nome dele. Os pais o batizaram assim por conta da lenda de Tristão e Isolda. Ironicamente, Tristão formou-se psiquiatra - mantinha a pose que se esperava de um médico em sua posição: austero, rígido, versado, direto. Mais que isso, tinha em seu semblante algo que todo paciente desse tipo de especialista espera de um bom médico psiquiatra: ele mesmo parecia precisar desse tipo de serviço.
Calvo, cabelos negros bagunçados, cerca de quarenta e tantos anos, óculos de armação fina e olhos verdes profundos. Algo naquele olhar me lembrava o personagem de Jack Nicholson em "O Iluminado". Mais de uma vez me perguntei se não era ele quem deveria se sentar deste lado do consultório. Uma vez me perguntei se ele não seria um paciente do pobre Dr. Tristão que há tempos atrás o sequestrou para ter acesso ao armário de amostras grátis e que agora passa a vida receitando remédio errado para pacientes, por diversão.
Pausa. Ele me pergunta algo.
Eu não ouvi merda nenhuma que ele disse até aqui.
Meu olhar vago me denuncia. Merda! Esse cara vai achar que eu sou louco.
Me concentro. Ele repete:
- Então, Igor, o que acontece?
Quanto tempo eu fiquei sem responder?
- Doutor, eu não sei. Acho que estou viciado.
- Em que? Cigarro? Cocaína? Álcool? - o safado se lembra de todas as nossas outras conversas.
- Não, doutor. Acho que o buraco é mais embaixo... - odeio essa expressão. Por quê fui usar essa expressão?
- Pois bem...?
- Doutor, acho que eu sou viciado em tristeza.
Ele não diz nada, apenas me encara. Aqueles olhos verdes, algo neles me dá algum consolo. Como se ele já soubesse do que eu estava falando.
Eu continuei: "Veja bem... Eu não tenho a vida que eu queria (na verdade, nem próximo disso.), muito menos vejo qualquer chance dessa vida me levar onde eu quero. Todo esforço que fiz para melhorá-la foi prontamente sabotado por mim mesmo. Claro, eu nunca notei. Na verdade, isso é uma leitura bem recente do que eu tenho feito, Doutor. Por exemplo, começo a perceber o quão pouco me doei a todos os meus sonhos e projetos, e entendo que se estes deram errados ou sequer saíram do papel, foi devido à minha própria (in)ação. Meus relacionamentos amorosos que fracassaram de súbito e me fizeram entrar em profunda depressão, hoje vejo que ruíram graças à minha frieza e meu medo de me expôr. E quando eu deito a cabeça sobre o travesseiro e me pego acordado por horas - digo, eu poderia tentar dormir ou meditar, mas opto, conscientemente, pela insônia e cansaço no dia seguinte. E essas horas de sono perdidas, invisto em que? Planos? Carreira? Não, gasto tudo em amores perdidos, planos fracassados, fantasias de como seria minha vida se esta pessoa ou aquela me deixasse ou morresse. Me esforço, a todo custo, para ver minhas lágrimas fluírem o mais rápido que puderem. Arquiteto brigas e discussões com aqueles que amo para me machucar depois. Me afasto das pessoas para protegê-las e para me punir. Às vezes até machuco outras pessoas, só para sentir a mágoa e o pesar de noite, enquanto o sono não vem. Me sinto sozinho, Doutor, e, na verdade, isso me agrada de alguma forma. Me sinto sozinho e quero continuar me sentindo assim..."
Ele me encarou por alguns segundos.
Inspirou profundamente. Louco. Certeza que agora não resta dúvidas. Esse cara tem certeza que sou louco.
Tristão se levantou. Se dirigiu ao armário de amostras grátis e pegou uma caixa de qualquer coisa. Abriu, colocou um comprimido na boca e engoliu seco. Me olhou.
- Me parece, Igor, que seu problema é grave.
- Doutor...?
- Você sofre de algo que a ciência ainda não compreende muito bem, uma patologia nova, que vem se manifestando cada vez mais e mais em pessoas da sua idade. Os primeiros pacientes começaram a aparecer há alguns anos, todos, por coincidência ou não, nascidos por volta do começo dos anos noventa - alguns antes, claro, mas raras exceções. Via de regra, dos noventa pra cá. Todos afogados na cultura do consumo. Todos enfiados, à força, nas redes sociais e na comunicação instantânea. Todos forçados à felicidade imediata e líquida. Todos criados num mundo à prova de tristeza ou mágoas, regado a sorrisos compartilhados em mídias eletrônicas e presos a uma noção plástica de felicidade.
Ajeitou os óculos de armação fina, as linhas de seu rosto severo agora mais duras que as estátuas da Ilha de Páscoa:
- Igor, temo que você sofra do que alguns colegas meus chamam de "O Mal do Século XXI". Um fenômeno onde as pessoas vivem tão isoladas em si, mas tão conectadas com outras, que todo relacionamento é efêmero. Um fenômeno onde a obrigatoriedade da alegria cria, de fato uma sensação de alegria quase genuína, porém passageira. O quê você tem, Igor, é vontade de estar vivo em um mundo, efetivamente, vivo. Ora, se a felicidade é plástica, a Tristeza só pode ser de carne e osso. Podemos dizer que sua compulsão em criar e sustentar sua tristeza não é nada senão seu grito de liberdade. É sentir dor, sentir-se sufocado, para sentir-se vivo num mundo anestesiado.
Tristão colocou a caixa de remédios sobre sua mesa, apoiou-se na mesma e concluiu:
- Não, não é depressão. É algo mais profundo. É uma patologia da alma, não da mente. E, temo lhe informar, por mais avançada que a medicina esteja, por mais avançada que a psicanálise esteja... Igor, seu problema não é de ordem médica. Seu problema está ligado às relações inter-pessoais da sociedade e a toda configuração psicológica da mesma. A onde pertence Igor, nesse tempo? A onde pertence Igor, nessa sociedade?
O seu problema, Igor, não possui cura.
O Dr. Tristão - sim, esse é o nome dele. Os pais o batizaram assim por conta da lenda de Tristão e Isolda. Ironicamente, Tristão formou-se psiquiatra - mantinha a pose que se esperava de um médico em sua posição: austero, rígido, versado, direto. Mais que isso, tinha em seu semblante algo que todo paciente desse tipo de especialista espera de um bom médico psiquiatra: ele mesmo parecia precisar desse tipo de serviço.
Calvo, cabelos negros bagunçados, cerca de quarenta e tantos anos, óculos de armação fina e olhos verdes profundos. Algo naquele olhar me lembrava o personagem de Jack Nicholson em "O Iluminado". Mais de uma vez me perguntei se não era ele quem deveria se sentar deste lado do consultório. Uma vez me perguntei se ele não seria um paciente do pobre Dr. Tristão que há tempos atrás o sequestrou para ter acesso ao armário de amostras grátis e que agora passa a vida receitando remédio errado para pacientes, por diversão.
Pausa. Ele me pergunta algo.
Eu não ouvi merda nenhuma que ele disse até aqui.
Meu olhar vago me denuncia. Merda! Esse cara vai achar que eu sou louco.
Me concentro. Ele repete:
- Então, Igor, o que acontece?
Quanto tempo eu fiquei sem responder?
- Doutor, eu não sei. Acho que estou viciado.
- Em que? Cigarro? Cocaína? Álcool? - o safado se lembra de todas as nossas outras conversas.
- Não, doutor. Acho que o buraco é mais embaixo... - odeio essa expressão. Por quê fui usar essa expressão?
- Pois bem...?
- Doutor, acho que eu sou viciado em tristeza.
Ele não diz nada, apenas me encara. Aqueles olhos verdes, algo neles me dá algum consolo. Como se ele já soubesse do que eu estava falando.
Eu continuei: "Veja bem... Eu não tenho a vida que eu queria (na verdade, nem próximo disso.), muito menos vejo qualquer chance dessa vida me levar onde eu quero. Todo esforço que fiz para melhorá-la foi prontamente sabotado por mim mesmo. Claro, eu nunca notei. Na verdade, isso é uma leitura bem recente do que eu tenho feito, Doutor. Por exemplo, começo a perceber o quão pouco me doei a todos os meus sonhos e projetos, e entendo que se estes deram errados ou sequer saíram do papel, foi devido à minha própria (in)ação. Meus relacionamentos amorosos que fracassaram de súbito e me fizeram entrar em profunda depressão, hoje vejo que ruíram graças à minha frieza e meu medo de me expôr. E quando eu deito a cabeça sobre o travesseiro e me pego acordado por horas - digo, eu poderia tentar dormir ou meditar, mas opto, conscientemente, pela insônia e cansaço no dia seguinte. E essas horas de sono perdidas, invisto em que? Planos? Carreira? Não, gasto tudo em amores perdidos, planos fracassados, fantasias de como seria minha vida se esta pessoa ou aquela me deixasse ou morresse. Me esforço, a todo custo, para ver minhas lágrimas fluírem o mais rápido que puderem. Arquiteto brigas e discussões com aqueles que amo para me machucar depois. Me afasto das pessoas para protegê-las e para me punir. Às vezes até machuco outras pessoas, só para sentir a mágoa e o pesar de noite, enquanto o sono não vem. Me sinto sozinho, Doutor, e, na verdade, isso me agrada de alguma forma. Me sinto sozinho e quero continuar me sentindo assim..."
Ele me encarou por alguns segundos.
Inspirou profundamente. Louco. Certeza que agora não resta dúvidas. Esse cara tem certeza que sou louco.
Tristão se levantou. Se dirigiu ao armário de amostras grátis e pegou uma caixa de qualquer coisa. Abriu, colocou um comprimido na boca e engoliu seco. Me olhou.
- Me parece, Igor, que seu problema é grave.
- Doutor...?
- Você sofre de algo que a ciência ainda não compreende muito bem, uma patologia nova, que vem se manifestando cada vez mais e mais em pessoas da sua idade. Os primeiros pacientes começaram a aparecer há alguns anos, todos, por coincidência ou não, nascidos por volta do começo dos anos noventa - alguns antes, claro, mas raras exceções. Via de regra, dos noventa pra cá. Todos afogados na cultura do consumo. Todos enfiados, à força, nas redes sociais e na comunicação instantânea. Todos forçados à felicidade imediata e líquida. Todos criados num mundo à prova de tristeza ou mágoas, regado a sorrisos compartilhados em mídias eletrônicas e presos a uma noção plástica de felicidade.
Ajeitou os óculos de armação fina, as linhas de seu rosto severo agora mais duras que as estátuas da Ilha de Páscoa:
- Igor, temo que você sofra do que alguns colegas meus chamam de "O Mal do Século XXI". Um fenômeno onde as pessoas vivem tão isoladas em si, mas tão conectadas com outras, que todo relacionamento é efêmero. Um fenômeno onde a obrigatoriedade da alegria cria, de fato uma sensação de alegria quase genuína, porém passageira. O quê você tem, Igor, é vontade de estar vivo em um mundo, efetivamente, vivo. Ora, se a felicidade é plástica, a Tristeza só pode ser de carne e osso. Podemos dizer que sua compulsão em criar e sustentar sua tristeza não é nada senão seu grito de liberdade. É sentir dor, sentir-se sufocado, para sentir-se vivo num mundo anestesiado.
Tristão colocou a caixa de remédios sobre sua mesa, apoiou-se na mesma e concluiu:
- Não, não é depressão. É algo mais profundo. É uma patologia da alma, não da mente. E, temo lhe informar, por mais avançada que a medicina esteja, por mais avançada que a psicanálise esteja... Igor, seu problema não é de ordem médica. Seu problema está ligado às relações inter-pessoais da sociedade e a toda configuração psicológica da mesma. A onde pertence Igor, nesse tempo? A onde pertence Igor, nessa sociedade?
O seu problema, Igor, não possui cura.
Diálogos #1
- O que eu faço?
Eu o encarei por alguns instantes, em silêncio.
Os olhos castanhos atravessavam minha alma. Eu sabia que, sob seus pés, não havia chão. Imaginava as borboletas em seu estômago. O nó em seu espírito. O grito preso na garganta.
Os olhos castanhos atravessavam minha alma. Eu sabia que, sob seus pés, não havia chão. Imaginava as borboletas em seu estômago. O nó em seu espírito. O grito preso na garganta.
- O que eu faço? - Ele repetiu.
Eu sabia a resposta desde o início. Mas, como boa atriz, fingi estar em dúvida pra aliviar a barra dele. Arrumei as pulseiras, mexi nos cabelos e olhei pra ele, calma, mas fingindo alguma angústia. Ser óbvia aqui só o deixaria mais desconcertado.
- Olha... O que você tá me dizendo é que, basicamente, tu tá apaixonado por um guri que não mora aqui nem em lugar nenhum, é isso?
- É. Ele é artista, Mora cada hora em um lugar.
- E ele é basicamente a metade de você que você nunca encontrou?
- É, mas tem o Fábio...
- É. Então, basicamente, é deixar um amor por uma paixão. É isso?
- Sim. Eu acho...
- Então é basicamente trocar o certo pelo incerto? Trocar um sim por um talvez? Trocar uma companhia certa por uma dor que vai e volta, e você nunca vai saber quando volta? É optar, conscientemente, pelo amor que dói, pela distância, pela saudade e pela espera? Uma paixão perene, um sofrimento contínuo, um amor sazonal?
- É. Ele é artista, Mora cada hora em um lugar.
- E ele é basicamente a metade de você que você nunca encontrou?
- É, mas tem o Fábio...
- É. Então, basicamente, é deixar um amor por uma paixão. É isso?
- Sim. Eu acho...
- Então é basicamente trocar o certo pelo incerto? Trocar um sim por um talvez? Trocar uma companhia certa por uma dor que vai e volta, e você nunca vai saber quando volta? É optar, conscientemente, pelo amor que dói, pela distância, pela saudade e pela espera? Uma paixão perene, um sofrimento contínuo, um amor sazonal?
Ele me encara por alguns momentos. Ele vai dizer que eu tenho razão. Ele vai optar pelo certo ao incerto.
Silêncio.
Ele respira fundo olhando para os próprios pés, solta o ar pesadamente e se vira para mim:
Silêncio.
Ele respira fundo olhando para os próprios pés, solta o ar pesadamente e se vira para mim:
- Você tem razão. Eu não...
- Vai. Você deve. Vai.
- Vai. Você deve. Vai.
Porquê eu acredito que, sem uma grande dor, não há por quê viver. E ele sabe que eu tô certa, mesmo sem saber exatamente como.
terça-feira, 16 de junho de 2015
Memento Mori
Uma ode aos excessos;
Uma sonata aos pecados,
uma lira de vinte mil anos
na luxúria gozados!
Não hás de fumar, tampouco
deveis comer ou beber
em apoucamento -
Não hás de passar em desalento
essa vida que há de findar!
Quando em comemorações,
Não meça suas ações -
O arrependimento posterior,
agridoce, acredite, tem bom sabor
para aquele de espírito largo
e riso amargo!
Gozai das tardes de verão
nesse ímpeto incestuoso,
onde da volúpia e do desejo
o gozo faz como trovão
o tempo passar tempestuoso!
E brada teu grito retumbante
e lança de uma vez sob a mortalha
aquele que em sua estupidez
atrapalha ou achincalha
o afã do bom-vivant!
E derruba de um só golpe
Os que perseguem e vêm a galope
ao encalço dos que seguem
à risca a esta ode
que cheira a ouro mas é de cobre!
Lembrai, lembrai!
Que há entre nós quem vive sem viver,
tudo que é vivo um dia morre!
E se não vives, que diferença faz morrer?
Uma sonata aos pecados,
uma lira de vinte mil anos
na luxúria gozados!
Não hás de fumar, tampouco
deveis comer ou beber
em apoucamento -
Não hás de passar em desalento
essa vida que há de findar!
Quando em comemorações,
Não meça suas ações -
O arrependimento posterior,
agridoce, acredite, tem bom sabor
para aquele de espírito largo
e riso amargo!
Gozai das tardes de verão
nesse ímpeto incestuoso,
onde da volúpia e do desejo
o gozo faz como trovão
o tempo passar tempestuoso!
E brada teu grito retumbante
e lança de uma vez sob a mortalha
aquele que em sua estupidez
atrapalha ou achincalha
o afã do bom-vivant!
E derruba de um só golpe
Os que perseguem e vêm a galope
ao encalço dos que seguem
à risca a esta ode
que cheira a ouro mas é de cobre!
Lembrai, lembrai!
Que há entre nós quem vive sem viver,
tudo que é vivo um dia morre!
E se não vives, que diferença faz morrer?
Janela
Já nelamor
/\ a
há i
o
r
Que a janela
há de
enquadrar.
Defenestra
o meu amor
que era pra se guardar,
que era pra te guardar,
ó, meu amor,
defenestra!,
que a janela
há de se
esvaziar.
Já nelamor.
/\
não há
(https://www.instagram.com/zvingila)
/\ a
há i
o
r
Que a janela
há de
enquadrar.
Defenestra
o meu amor
que era pra se guardar,
que era pra te guardar,
ó, meu amor,
defenestra!,
que a janela
há de se
esvaziar.
Já nelamor.
/\
não há
* * *
(https://www.instagram.com/zvingila)
Resiliência
Saiba que, um dia, você vai aprender – e vai ser da pior
forma possível – que, por vezes, para manter-nos vivos, é necessário matar um
grande pedaço de si. Digo que vai ser da pior forma possível com certeza do que
digo, pois só há uma forma de aprender isso: na prática. Digo que vai acontecer
pois, caso nunca aconteça, temo dizer-lhe que você nunca viveu. Mais ainda,
preciso advertir-lhe de alguns pontos cruciais: vai ser sempre cedo demais; vai
sempre doer demais; vai sempre sangrar mais do que você pensou que sangraria. E
talvez nunca cicatrize. Mas assim é a vida, e só é vida se sentirmos dor. Saiba
que, invariavelmente, esse pedaço seu que você irá sacrificar conterá tudo o
melhor que há em você. Saiba também que – e aqui é um palpite meu – esse pedaço
seu nunca se encontra de fato em você, mas em outrem. Saiba que esse pedaço irá
lhe faltar para o resto da sua vida. Tenha em mente que as lágrimas que você
derramar nos primeiros dias poderiam muito bem inundar toda a Ásia. E que as
lágrimas que você vai chorar no resto da sua vida, toda a América. Mas isso não
importa, o ponto crucial é que você nunca vai, de fato, parar de lamentar essa
perda. Mesmo que você não chore, tenha certeza que um pedaço de você ainda
lamentará essa perda e ainda estará enlutada no final da sua vida. A boa
notícia é que essa dor torna-se suportável, de alguma forma, em algum momento.
Eu nunca entendi – e nem vou entender – como acontece. Eu nunca tive sagacidade
suficiente para entender se era aos poucos ou de repente. Eu sei que passa. A
dor, passa. Mas no lugar dela, fico outra coisa. Que dói menos, mas incomoda
mais. Um misto de angústia e saudade, luto e nostalgia. Uma mágoa que não é
mais física, é espiritual. Saiba que quando acontecer, vai ser visceral, vai
ser cruel, vai ser terrível. Não tem como não ser. Saiba que ninguém vai
entender. Não importa o quão bem você explique, essa dor é de um jeito pra cada
pessoa. Essa dor é só sua. Ela te define. Mas saiba também que esse pedaço seu
que morre, no entanto, não morre de todo. Ele passa a existir em outro. E eu
espero que você tenha a sensibilidade de saber tomar um pedaço novo e alocar em
si – um pedaço que outra pessoa também matou para entregar a você. Pois veja
bem, por mais que sempre será nosso braço a cometer o homicídio, jamais será
nossa culpa. Jamais será de bom grado. Jamais será de alma limpa e coração
leve. A dor que você vai sentir então é a dor irmã da dor daquela pessoa que,
no mesmo momento do teu sacrifício, se sacrificou também. Você mata um pedaço
de si para que ela mate um pedaço de si. Ela leva o melhor de você e deixa
contigo o melhor dela. Mesmo que vocês se separem, que nunca mais se vejam,
essa dor de vocês é única, pertence somente a vocês. Essa dor os mantém unidos.
E assim, a gente vai vivendo. Com os corações remendados. Com os espíritos marcados.
Pois bem, saiba sempre: um dia, você vai morrer. E depois, de novo. E de novo.
E sempre da pior forma possível. Sempre dando mais do que estava disposto a
dar. Sempre doendo mais do que você pensou que iria doer. Sempre matando o
pedaço de você que você mais ama para poder sobreviver.
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