...Eu te vi diversas vezes nos últimos meses.
Vi você nas esquinas e nas ruas; vi você nas bitucas de cigarro paraguaio e nas cervejas despretensiosas, nos bares sujos do centro.
Vi você, passando ali perto do cemitério - aliás, te vi no cemitério!
Te procurei , também.
Fatalmente, sempre falhei em te encontrar, mas te vi nas galerias dos museus e nas fachadas cinzas e feias da cidade.
Eu te vi na chuva morna de fim de tarde.
Eu te vi na noite lenta que tarda a findar.
Eu te vi de soslaio nas marchas de rua e nos carnavais, e eu tenho quase certeza que te vi outro dia ali perto da Angélica.
Seus olhos eu vi em cada crise e em cada saudade.
Em cada ato mal pensado vi seu olhar de reprovação embebido em empatia como só você é capaz de fazer.
Vi você em barcos de papel e em sorvetes, em livros e em estantes, em cartaz nos cinemas e nas minhas notas de rodapé.
Eu te vi tantas vezes que nem parece que você se foi para onde eu não posso te encontrar mais.
Eu te vi em todo lugar, e tentei te achar em todos os lugares, mas você não deixou rastro nenhum.
Para além disso, eu tentei ainda te encontrar em todos os sorrisos - e, graças a deus, eu falhei todas as vezes que tentei.
terça-feira, 5 de novembro de 2019
sexta-feira, 30 de agosto de 2019
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Eu tinha planos hoje, até você aparecer.
Eu tinha planos de me levantar da cama, comer e ir à faculdade, ao trabalho.
Eu planejava visitar uns amigos hoje, mais tarde talvez.
Eu só não esperava sua visita assim, sem mais nem menos, pego de surpresa antes de despertar.
Sonhar com você é acordar ao lado de um fantasma.
É me arrebatar a sanidade antes mesmo de acordar.
Não acendi a luz.
Não me levantei da cama.
Sequer me dei ao trabalho de cancelar meus parcos compromissos.
E sequer me darei ao trabalho de terminar esse poema - como você sequer se deu ao trabalho de acabar com o pouco que sobrou daqui.
terça-feira, 21 de maio de 2019
Dois meses e meio - ou "Antes a escuridão à eternidade encarnado"
Hoje fazem dois meses e meio que não saio do meu quarto.
Eu sei, eu sei, vocês devem ter me visto indo comprar cigarro e pão na padaria há uma ou duas semanas, ou podem ter me visto voltando do trabalho no final da tarde, mas de pronto lhes advirto: aquele não sou eu. Eu não saio do meu quarto fazem dois meses e meio.
Eu não sei ao certo como começou, mas...
...aliás, eu sei sim.
...aliás, eu sei sim.
Começou com uma dor de cabeça, forte e intermitente.
Depois veio o formigamento nas mãos e os calafrios - os calafrios que nunca mais pararam.
A falta de apetite, a falta de ar e a cabeça leve.
Ninguém falou nada, mas eu sabia que todos percebiam. Ora, não há como disfarçar o andar fadigado, os passos arrastados e o olhar perdido e cansado. Eu juro que, se o calor do verão não me incomodasse tanto, eu provavelmente teria abdicado dos banhos também - junto com os cafés da manhã que eu tanto apreciava e as caminhadas matinais, que de pronto abandonei.
Fui levando até não ter mais forças.
E aí, aconteceu.
Como numa metamorfose bizarra ou numa troca de peles, eu me desgrudei.
Deixei a carapaça pra trás e caminhei sem ela, nu de carne, músculo e cartilagem.
Como um exoesqueleto moribundo, eu me libertei de meu próprio corpo - sem, no entanto, cessar dele a vida.
Estupefato eu olhei para mim mesmo em terceira pessoa, deitado meio sem vida sobre a cama desarrumada.
O olhar letárgico, a boca entreaberta, o nariz pontudo.... o peito, teimosamente respirando.
Sentei-me - não o corpo - à escrivaninha e pus-me a escrever. Li pela primeira vez em semanas, escrevi pela primeira vez em meses. O cigarro não me fez falta, pela primeira vez em anos.
Enquanto, absorto, me debruçava sobre os papeis, vi-me - agora sim, o corpo - atravessar o quarto mal iluminado. As costas arqueadas, os pés arrastando-se pelo chão, o casaco nas costas. Eram sete da manhã, e meu corpo estava atrasado para o trabalho.
Fazem dois meses e meio que minha carcaça semi-putrefata se arrasta pelas ruas da cidade, tal qual um zumbi. Desalmado, desgraçado e malacabado, com as costas arqueadas e o olhar vazio.
O quarto ainda fede a cigarro, e eu sei que meu corpo não vai durar muito mais tempo.
Faz uma semana que passei a me perguntar, agora preocupado: devo eu regressar a tal estado diminuto e miserável de existência afim de tentar proteger esse cadáver que caminha?
Se tombar o cadáver, dissipo-me também na escura inexistência do cessar da vida?
E o mais importante: regressar à carcaça poderá me impedir de abandoná-la depois?
O olhar letárgico, a boca entreaberta, o nariz pontudo.... o peito, teimosamente respirando.
Sentei-me - não o corpo - à escrivaninha e pus-me a escrever. Li pela primeira vez em semanas, escrevi pela primeira vez em meses. O cigarro não me fez falta, pela primeira vez em anos.
Enquanto, absorto, me debruçava sobre os papeis, vi-me - agora sim, o corpo - atravessar o quarto mal iluminado. As costas arqueadas, os pés arrastando-se pelo chão, o casaco nas costas. Eram sete da manhã, e meu corpo estava atrasado para o trabalho.
Fazem dois meses e meio que minha carcaça semi-putrefata se arrasta pelas ruas da cidade, tal qual um zumbi. Desalmado, desgraçado e malacabado, com as costas arqueadas e o olhar vazio.
O quarto ainda fede a cigarro, e eu sei que meu corpo não vai durar muito mais tempo.
Faz uma semana que passei a me perguntar, agora preocupado: devo eu regressar a tal estado diminuto e miserável de existência afim de tentar proteger esse cadáver que caminha?
Se tombar o cadáver, dissipo-me também na escura inexistência do cessar da vida?
E o mais importante: regressar à carcaça poderá me impedir de abandoná-la depois?
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