terça-feira, 25 de outubro de 2016

Obsessão

Penso em você pela primeira vez no dia.
Acendo o segundo cigarro.
Coloco três doses de conhaque no copo.
Espreito pela quarta janelinha
Do quinto andar do sexto prédio
Perdido na Sete de Abril.
São oito da noite.
São nove da noite.
São dez da noite.
Checo as portas e janelas,
Onze vezes cada trinco.
Bebo o décimo copo d'água do dia,
Nove passos da cozinha até a sala
Coloco o despertador para os oito
Espio pela janela a rua,
Que é a Sete de Abril,
Penso que amanhã é sexta-feira
Que moro no quinto andar
E estou num quarto vazio
Às três da manhã, revisando
pela segunda vez um poema que deveria ter
Vinte e cinco linhas.
Continuo pensando em você pela primeira vez no dia.
Que conste aqui, ao final,
Uma linha solta dedicada a você - minha obsessão.

Halley 75,3

Rasga o céu o primeiro raio do sol
E eu me desfaço em fumaça
Na ponta de um cigarro me elevo
E me perco mais uma vez

Sem dormir há décadas,
Ciscando paixões e perdendo amores
De vista e a vida que se esvai e desaparece
Tão rápida quanto o sol que fenece

E morre e entardece,
Me derramo nos bares, perdidos
Os olhares e os corpos
Entre os copos - não sei dizer onde há mais vazio

E vai-se a vida, salpicada
E triturada, defumada
E mergulhada em querosene:
Cinzas que se perdem na memória

Passa a vida e passa o tempo
Passam os amores como automóveis
E morremos silenciosos
Ociosos e autoabandonados

A lua se esconde como nós
As estrelas se perdem
As constelações não aparecem
Como elas, nós, os que padecem

Como cometas cruzamos nossas histórias
E deixamos um rastro de pó e poeira na memória
Não-periódicos, Halleys esporádicos
que somem no infinito e viram estória

Nos destruímos para nos encontrar
Nos perdemos e nos reconstruímos
Nos recriamos e no fim notamos
Que de nada adiantou - o que era pra ser?

Niilismo que se transforma em hedonismo;
Mediocridade que se converte em apreciação.
Megalomaníacos, hipomaníacos,
Hipocondríacos, distímicos e deprimidos

Somos a nata do que sobrou
O resto daquilo que foi e não mais voltou
Nos remontamos pelas manhãs
Para podermos nos quebrar nas madrugadas

Rasga o céu o primeiro raio do sol.
E eu me desfaço em fumaça.
Na ponta de um cigarro me elevo,
E me perco mais uma vez.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Um Vazio

Ao lado daquele homem caminha um vazio. Um vazio que não possui nome: não é saudade, tampouco é nostalgia. Não é desses sentimentos passíveis de serem nomeados. É um vazio que é único, e que apenas a ele poderia pertencer. Decerto tampouco é como os demais; este vazio não denota, passivamente, a falta de algo: é um vazio que exerce presença.
A ele - o vazio - falta a condição daquelas coisas que são de fato vazias; é um vazio que quase pode ser tocado - é paradoxalmente pesado. Vê como ele - o homem - anda curvado? É exatamente isso: se rememorar é reviver, esse é um vazio, então, que não pode jamais morrer.
Não é também um vazio que se basta em ser; não, este é um vazio violento, que machuca, rasga, sangra e escapa aos olhos menos atentos. Disse-me certa vez o homem que "não é um vazio silencioso, também. É um vazio que se manifesta constantemente; sussurra de dia e grita de noite, e está presente sempre que me lembro daqueles olhos, os únicos capazes de me enxergar a alma".
Há ali uma memória que se nega a escapar, percebo.
Há ainda, naquele espaço que o vazio ocupa, o espaço que fora outrora de outrem - não é amorfo, está lá por uma razão. Ainda há marcas visíveis ali, marcas essas que transpõe o tempo e a carne.
Não se alimenta de arrependimentos ou de inapagáveis sentimentos - o vazio se basta.
"Ele é real", ele me diz, "pois há algo ali que não morreu".