Eu era jovem quando a conheci.
As roupas eram atípicas, mas eu não notei. Não notei o odor agridoce de seu perfume, nem o toque delicado de seus dedos e nem pude me aperceber do que trazia consigo. Ela partiu como veio: delicada e sutilmente, como o vento que – imagino – atravessa o campo de centeio.
Eu era ainda jovem quando ela visitou da segunda vez. Dessa vez, trouxe aspereza. Um incômodo ainda incompreensível. Me lembro de seus passos leves adentrando pela porta da frente do hospital. E ela partiu como veio: muda.
Eu já não era jovem quando ela veio pela terceira vez. Na verdade, pensando bem, desde aquele dia no hospital percebo que ela estava, de alguma maneira, sempre presente. Aquela voz muda, aquele toque áspero que me acariciava através do vento e o arrastar lento de suas vestes longas e lúgubres... Sempre presente desde então. Na terceira vez, entrou sem cerimônia e sem delicadeza. Chegou pela porta da sala, derrubou a mesa de centro e as flores de plásticos horrendas que a enfeitavam. Abriu os braços e disse “agora estarei para sempre presente, esta é minha face e dela jamais esquecerás”. E assim se fez, e eu nunca esqueci.
Via seu rosto pela manhã, ao acordar, o via nas noites mal-dormidas e o via no espelho. Na solidão eram seus dedos gélidos e sua pele – ora áspera, ora sedosa – que seguravam minhas mãos. Acostumei-me. Era presença não dita e corriqueira; não anunciada, imanente e sempre presente.
Na quarta vez, pela primeira vez, a visita era para mim. Olhou-me nos olhos no silêncio sepulcral das noites sujas e moribundas da cidade e me sorriu – ela sempre sorria. E numa fração de segundos, tudo aconteceu.
Na quarta vez, pela primeira vez, a visita era para mim. Olhou-me nos olhos no silêncio sepulcral das noites sujas e moribundas da cidade e me sorriu – ela sempre sorria. E numa fração de segundos, tudo aconteceu.
***
Nada aconteceu. Abriu os braços, envolveu-me mais uma vez em seu manto escuro adornado com as estrelas mais brilhantes e fugiu. Deixou-me alguns segundos breves contemplativo – não atônito. Não houve medo, não houve receio. Não há que se temer o fim ao qual todos caminhamos.
A vida seguiu.
***
Um corpo caiu no chão. O sangue quente corria pelo meio-fio até quase coagular. Os primeiros a chegar foram os vizinhos, depois a perícia. Morri sentindo nada; um vaso vazio. O absurdo, o medo, a angústia, nada disso que se espera me acompanhou. Daquele corpo inerte emanava apenas raiva. Ódio. Não dela; não sei dizer de quê.
Mas um corpo nunca cai sozinho.
Somos todos constelações num oceano cósmicos, replicados no tecido do infinito. Somos um, somos vários, e o somos quase simultaneamente. O corpo que morreu lá fez seu baque surdo contra o concreto ser ouvido cá e em outras n possibilidades cósmicas – mas ali, pela primeira e última vez ela me visitou.
***
Olhei através do espelho sujo e enevoado que me separa de mim mesmo caído numa outra São Paulo, coberto pelo saco metálico que envolve os que chegaram no limite ou que foram limitados.
Naquela madrugada quente eu morri em algum lugar, e ela me permitiu vislumbrar o corpo sendo carregado.
“E agora?”, perguntei, apático.
“E agora?”, ela me respondeu, fria, com o sorriso macabro.
Ponderei por alguns minutos.
“E os sonhos...?”, perguntei.
“Findados.”
“As palavras não ditas...?”
“Assim permanecerão.”
“As cartas...”
“As cartas não endereçadas seguirão não endereçadas. As cartas não escritas seguirão não escritas.”
“Então é assim o fim?”, perguntei melancólico.
“O fim? Não, não o fim. Eu sou a sentença final. Eu sou a permanência do não dito. As palavras que não foram proferidas, a potência não concretizada, a ação não cumprida... Essa sou eu. Eu não termino nada, eu apenas sentencio a inércia ao seu próprio curso. Não o fim, mas a eternidade – infindável.”
“Mas as coisas que fiz e falei...”
“Findadas por suas próprias mãos.”
“E as que estavam em curso...?”
“Abortadas. Consignadas ao vazio. Jamais serão – e, se forem, não mais serão suas.”
O vento morno soprava.
***
Dei por mim, ainda vivo e consciente, no mesmo dia digerindo suas palavras.
Disse-me que morrer não é o encerramento da vida, mas a última sentença à inação: sua própria natureza. Morrer não é deixar de fazer, mas seguir não fazendo; é seguir não sendo.
Morrer não finda a vida; viver não se opõe a seu fim inevitável – a morte. Quem pensa que morrer é não viver se engana, como eu me enganei. Morrer é não mais ser movimento – e tudo que não se move não é. Aqui, tornar-se memória é apenas a forma aparente dessa forma final de inflexibilidade do ser – e, portanto, ser é a única forma de não morrer.
Não se trata de enganar a Morte, ela é imanente.
Não se trata de barganhar com ela, pois ela é insaciável.
Não se trata de transcender.
Trata-se de matar a inércia das coisas que não são e devem ser. De fazer a palavra ser dita, pois é absurdo que não o seja; de fazer a ação se consumar, pois é necessária no mundo.
Trata-se, no fim e ao cabo, de matar a própria Morte.
Naquela noite abafada e quase intragável, matei-a.
Desgraçada como é, por certo que não permanecerá morta por tempo demasiado – mas hoje eu venci a Morte, minha eterna companheira.
Memento.