sábado, 11 de junho de 2016

Na cidade

Esgueirou-se até debaixo do viaduto, costas curvadas, pés cansados.
O sol se punha veloz no horizonte. Ele arrastava com certa dificuldade, na mão direita, umas caixas de papelão. Tratou de forrar a calçada e se sentou. Contou as moedas que levava no bolso após colocar sobre a cama improvisada o resto de sanduíche que carregava num saco de pão. Era sempre muito bom conseguir um local coberto para passar a noite, especialmente nesses dias incertos onde a chuva pode surpreender durante a madrugada. O clima hostil de idos de junho endurecia as pessoas, que passavam apressados por ele sem desviar o olhar do chão e sem tirar as mãos dos bolsos. Ele puxou a coberta - um pedaço de tecido velho que não esquentava muito bem - e colocou sobre os ombros, para tentar barrar o vento que, impiedoso, varria as alamedas, resfriava corpos e congelaria corações que, porventura, ainda não tivessem sido petrificados pela cidade. A vida era dura na capital, muito mais angustiante e desumana do que ele imaginaria que fosse quando se mudou.
Há vinte anos, com uma mala nos braços, desembarcando na rodoviária, sorriu apreensivo para a cidade com a qual tanto sonhara nas noites que antecederam sua partida. A cidade, no entanto, não lhe retribuiu o sorriso. As oportunidades que imaginou que por aqui existiam logo se mostraram uma grande ilusão. Não conseguiu se estabelecer de pronto e, sem emprego, logo se viu forçado a mudar do pequeno hotel no centro que alugara para albergues. A esperança, no entanto, seguia inabalada. E seguiu assim, mas não por muito tempo. Teve os pertences roubados e o rosto machucado. A dignidade ferida, mas a fé inabalável. Com o passar dos anos, no entanto, fé e esperança foram minguando. O que era esperança virou saudade de casa, e o que era fé virou fome. E o pouco que lhe sobrara de dignidade fora se perdendo dia-a-dia: no olhar de desprezo dos pedestres, nas abordagens policiais, no desdém da sociedade. Conheceu a fome que antes não conhecia. conheceu a sede que antes não conhecia - e conheceu a violência que também desconhecia. Algumas vezes eram as gangues do centro, expulsando-o da cidade que clamavam ser deles; n'outras, eram as gangues fardadas que, armadas com pedaços de ferro e longos pedaços de pau, expulsavam-no sem qualquer justificativa. Assim, foi se perdendo. A volta para casa não era uma opção.E se perdeu tanto que um dia não se reconheceu mais. A fome e a constante hostilidade daquela cidade o moldaram, tal qual o artesão molda o barro, numa figura amorfa: não era ninguém, mas ainda era ele de alguma forma. Exista, mas não parecia. Por fim, a fome o levaria ao encarceramento e à privação de sua liberdade - se é que alguma havia. E assim, ao sair de volta ao mundo, já não carregava seu corpo nada daquilo que ele reconhecia como seu. Era como se, ao sair de casa, tivesse deixado para trás o espírito e agora, na capital, uma carcaça caminhava, oca de alma, vazia de sentimento.
Até a dor no peito que sentia quando lembrava de casa doía menos com o passar dos anos. Perdera sua identidade? Teria ele se tornado outra pessoa, enfim? E, se sim, aquele rapaz altivo e ousado, onde estaria agora?
Um som. Uma moeda. O sutil barulho do choque do centavo junto com o pequeno amontoado de moedas ao seu lado o traz de volta de seus devaneios. Ele sequer ficava triste agora, já tinha se acostumado. Era um recipiente vazio: não havia tristeza, não havia alegria. Suspirou fundo ao olhar para o lado, no espaço vazio onde seu amigo, um vira-latas empoeirado, se deitava nas noites passadas. O cão, já velho, morrera há algumas semanas. O cão, que por muito tempo fora sua única família. Levou à boca um cigarro meio amassado - algumas pessoas ora ou outra lhe entregam cigarros no lugar de moedas - mas logo se deu conta de não possuir isqueiro ou fósforo. Mais um suspiro, dessa vez frustrado, pois nem fumaça podia ter.
Tomou as moedas e as guardou de volta no bolso. A noite vem mais rápido no inverno e quanto antes pegasse no sono, antes a noite iria embora. Embrulhou bem o sanduíche e o colocou entre seu corpo e a parede. Se encolheu e puxou o tecido sobre si - uma tentativa quase ineficaz de se esquentar, mas era tudo o que as gangues de farda lhe deixaram ter, pois o restante fora apreendido por completo.
Abraçou-se e fechou os olhos. Ora ou outra, um carro passava na avenida. Não via nem ouvia, no entanto. A mandíbula estava fechada com força. Tremia. "Ao menos, não chove", pensava. E ali, de olhos fechados, tremendo e faminto, tentava dormir. Não sentia suas mãos ou seus pés. O vento passava por cima de seu corpo e levava embora o pouco de calor que restava. Se abraçou com mais força e, para se distrair, tentou pensar em qualquer coisa que não o frio. E lembrou-se de sua mãe, de como ela o abraçava com força e do sorriso em seu rosto antes de sua partida. Lembrou do sabor que tinha a comida em sua casa e da voz de sua irmã e irmão, que nunca mais encontrou. Lembrou-se do sol e do céu de sua terra, lembrou-se de quando jogava bola com os amigos da vizinhança. A forma como a avó materna lhe afagava os cabelos, quando pequeno, e o avô, sempre carregando no bolso da camisa um cigarro de palha. Viu a casa, viu a rodoviária de sua cidade e viu a primeira namorada. Sentiu o cheiro dos temperos e dos perfumes de sua cidade, ouviu o latido do cachorro do vizinho. E, conforme lembrava, como que por mágica, o frio ia desaparecendo. Descobriu que ainda havia ali, naquele homem cansado e enfermo, o mesmo rapaz que migrara anos atrás. O vento que lhe cortava o rosto debaixo do viaduto não era mais frio, e secou as lágrimas que, silenciosas, corriam seu rosto marcado pelo tempo. Se abraçou com mais forte e quem passasse ao lado dele não ouviria escapar, entre os dentes cerrados, os soluços abafados que cortavam seu pranto - e tampouco perceberia que aquele homem, sem nome e sem teto, no meio daquela cidade insalubre e hostil, apesar de tudo, sorria.
E sorrindo ouviu um som que cortou a noite. Abriu os olhos devagarzinho e, com a visão turva e com o peito aquecido pelas lembranças viu, do outro lado da rua, um rapaz alto, forte, com uma mala nas mãos. Sorriu, dessa vez mostrando os dentes. Estava voltando para casa, enfim.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Reencarnei

Reencarnei
às sete e meia da manhã,
cansada e mal vestida,
faminta e abatida
Caminhei
daqui até a cozinha
uma caixa de diazepínico
um mal-estar clínico
Traguei
meio maço de cigarro vencido
meio copo de uísque envelhecido
meia dose de pensamento sufocado
Ponderei
um coração mal cuidado
uma vida em desamparo
um corpo em despreparo
E deixei
de segurar o grito
desde suportar o atrito
a afogar o espírito
Voltei
de maquiagem borrada
de cabelo despenteado
para o leito desarrumado
Desencarnei

Eu me lembro, irmão.

Eu me lembro, irmão,
Naquela tarde em Dublin,
Quando caído no chão eu vi e,
Claro como nunca, reconheci que ali
Tudo onde a vista alcançava era
Aquilo pelo que a gente lutava;
Eu me lembro, irmão,
Daquela noite fria e silenciosa;
Da fome e da dor e da solidão.
Lembro que, da falta de palavras,
Veio a súbita realização; verdade desvelada:
Que entre nossos pares, tudo se resumia
À exploração, à subjugação,
Aos trapos e aos farrapos,
À miséria e à temperança.
E foi dessa epifania, profunda e irresoluta
Que inflamou-se a chama de nossa esperança
Reconhecemo-nos, enfim, como irmãos de luta.
Famélicos e sem-terra,
Pobres e apátridas:
Cabeças erguidas e punhos cerrados!
Eu me lembro, irmão,
Dos seus olhos como reluziam!
Me lembro, irmão, dos projéteis que zuniam,
Das mulheres e homens que combatiam.
Eu vi, irmão, quando tomaram as praças,
Quando prenderam nossos camaradas;
Vi quando tombaram as barricadas
E vi quando levaram nossos rapazes.
Eu estava lá quando Connolly foi fuzilado,
Quando MacBride foi baleado,
Quando MacDonagh foi sepultado,
Quando Pearse foi enterrado,
Quando Casement foi enforcado.
Eu me lembro, caído na praça de Dublin,
Sobre uma poça de sangue,
De ouvir você, ainda com as armas em mãos, irmão,
Antes do mundo escurecer, gritando;
Antes do sol se apagar, bradando:
A nossa hora há de chegar!

**Em homenagem a James Connoly, aos camaradas que tombaram na Revolta da Páscoa de 1916, na Irlanda, e ao I.R.A. (Exército Republicano Irlandês). Tiocfaidh ár lá!