quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Não há deus

Não existe deus senão o Capital
Não existe pré-determinação
Senão aquela imposta aos corpos
Pelo Capital

O livre-arbítrio é uma mentira
São nem sete da manhã
Tempo, não há também
Senão o tempo que é também imposto pelo Capital

Os bom-dias arrastados
As quebradas nubladas
Os cafés apressados e os olhos turvos e olhares enevoados
São, também, o Capital

Não ver o filho crescer
Não ver o ano passar
Não ver o sol nascer
Não ver o amor despertar
Não ter o que comer
Não poder estudar
Não ver a vida acontecer
Não ter pernas para andar
Nem ter asas para voar
É, tudo isso, o Capital

Não há o que se querer,
Nossa fé é no capital
Que não mora aqui, no canto da Sapopemba,
Mas alhures, onde o sol é cinza e a gente, civilizada

Não há vida, há o Capital
Boa sorte para quem fica
Pois já passam das sete
De uma segunda-feira sepulcral

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

História

A História do mundo, meu amor, é a nossa história.
Poderia ser a-histórica, atemporal e transcendental - mas não é. É concreta, pois existe; é dialética, pois é de nós dois; e é do mundo, pois é tudo que importa.

Vidas que se entrelaçam, corpos que se tocam, olhares enternecidos, mãos que se aquecem e lábios que nunca se tocaram -
- Alegorias, metáforas e melodias. Somos nós dois atravessando o Cabo e o Bojador, lendo as estrelas, os búzios e o tarô, construindo oráculos, nos perdendo e nos encontrando.
Somos nós nos amando.
  Nós caminhando.
    Você sorrindo
      E eu sonhando.

II - Destinatário

Quando escrevo, sabes que é para ti?
Depois de tanto tempo te escrevendo
- enquanto destinatário anônimo -
Eu ainda preciso te endereçar?

Já não sabes que todo meu labor
- forma manifesta da minha alma -
É todo inspirado pelo torpor que
Me acomete quando invoco teu nome?

É possível que teus olhos amendoados
Que me descortinam as entranhas
Sejam tão malfadados a ponto de
Não enxergarem meus gritos no papel?

Trombetas far-te-iam fazer notar?
Quantos faróis eu deveria alumiar
Para que na noite fria você pudesse
Enfim se aperceber daquilo que o mundo todo já sabe?

Incendiei Alexandria,
Arrasei os templos pagãos no Mediterrâneo,
Roubei as águas da Babilônia,
Apaguei os sóis da Mesoamérica!

Ergui pirâmides e poemas com teu nome
Em entrelinhas e ainda assim não sabes?

I - Não é só a sua voz

Não é só o que você fala,
É a sua voz, é o que você fala
E a forma como reverbera na lembrança
E como ecoa na memória.

Sua voz indecente que me faz acordar,
Que não me deixa dormir
E que me coloca para dormir
Ainda maravilhado e assombrado.

Que não espera convite para entrar
Pela porta da sala ou pela porta do quarto
E que não me espera acordar
Para ir embora antes da aurora
- e que não me abandona mesmo ausente.

Ausência! Ah, Ausência!
Assim, egrégora, fantasma, esfinge!
Não te conheço, mas te conheço tão bem!
- me conheces?

Não é só o som doce da sua voz,
O ritmo sereno da sua prosódia
Nem as formas e signos que evoca
- tesouros resgatados do fundo de um oceano que poucos exploraram!

Não é só a calmaria da melodia que evocas,
Ou a tormenta que anuncias;
A forma como alcança o horizonte
E que arremessa longe a esperança
- agridoce.

És Babalon domando a fera,
Prometeu tomando o fogo,
És a foice que solve!,
O golpe que coagula!

Não és divina, pois existe!
Não és profana, pois não o é!
És mais que isso
Pois caminha na terra dos incautos
Com a graça de um anjo submerso 

É a forma como articula suas consoantes,
Como enxerga além da bruma,
É a forma como me alcanças,
Como me fere e como me cura...!

Não, não é só pela sua voz,
É só pelo que és
Pela beleza que é te ter
Mesmo sabendo que jamais serás minha.