Rói meus pulmões a fumaça densa e seca do primeiro cigarro da manhã.
Eram três horas quando eu acordei depois de sonhar com você.
Eram três horas quando saí de um universo onde você existia para voltar à realidade
Para voltar à sua ausência
Quem nunca se sentou em um quarto só
No escuro, só, às três da madrugada
As lágrimas represadas detrás dos olhos
O grito sufocado e aprisionado na garganta
As mãos trêmulas sobre a cabeça
Os cabelos desgrenhados
O olhar perdido
O peito prestes a explodir e levar consigo toda Nagasaki
A alma retorcida
Sugada
Escorrida
O silêncio da demência rasgando a noite em dez
os dedos inquietos batucando sobre a mesa
A caneta no papel
As cicatrizes nos braços e nos pulsos e na alma
E a sanidade se esvaindo, aos poucos e então aos montes
E a sobriedade sendo suprimida,
com fumo
com álcool
com querosene
com poesia
E a sua ausência tomando cada vez mais espaço
Até ontem eu tinha algo
Hoje, sou cheio do vazio que você deixou
E o que mais me dói
Saber que você me esvaziou e de mim, não levou nada.
Me deixou carcaça
E se foi, fantasma.
quarta-feira, 19 de agosto de 2015
quarta-feira, 12 de agosto de 2015
Vocês que acham que são loucos
Vocês que acham que são loucos
não viram a cara da loucura, não sabem o que é o desespero que faz rir,
nunca gargalharam sozinhos num quarto enquanto o coração sangra e nunca correram pela madrugada pra lugar nenhum só para estar em movimento,
nunca aceitaram a solidão e nunca aceitaram a loucura e nunca aceitaram a vergonha e nunca aceitaram a dor
e nunca dispararam rumo ao sol e nunca galgaram rumo à treva e nunca dormiram ao relento e nunca acordaram perdidos
e sempre souberam amanhã ontem hoje e daqui a dez e vinte e cinquenta anos e sempre tiveram planos de carreira, de vida, de saúde, de automóvel,
sempre foram seguros e nunca conheceram o terror e o desespero de noite e sozinhos e verdadeiramente sozinhos,
vocês não sabem o que é três ou quatro ou cinco noites viradas acordado assombrado por si mesmo
vocês não sabem o que é se afogar em álcool ressuscitar no dia seguinte e se afogar em fumaça,
afogando-se e asfixiando-se não por prazer, não por querer, mas ser compulsoriamente compelido
por algo maior que si e que o mundo, por esse monstro de ócio e desespero e solitude e ranger de dentes e maxilares travados
e mãos suadas e pupilas dilatadas e roupas rasgadas e egos rasgados à meia noite num quarto de motel mal-iluminado no meio do centro-baixo da cidade-rasgada,
cinza e verde e vermelho rasgando a madrugada de asfalto e de fumaça e de consciência leve e perdida e perturbada,
vocês não sabem o que é vagar sem caminho às quatro da manhã de terça-feira sob os viadutos absolutos que reinam na capital,
se perguntando onde vão descolar a próxima dose de qualquer bebida que seja suficientemente barata e suficientemente forte e suficientemente ruim,
vocês não sabem o que é sentir o vazio dentro de si e o vazio em torno de si e discutir consigo mesmo de dia e de noite de tarde,
na aurora e no crepúsculo da alma que morre e suicida e homicida e vai e volta e se afoga
em paixões vãs de uma noite só ou de duas noites ou de semanas ou de noites perdidas ou noites dispersas,
não sabem o que é querer ver o fogo consumir o mundo e consumir a si e querer virar névoa ou cinza e querer viver e transceder
o mundo e o céu e o inferno que é viver entre aqueles que desejam o céu e não vivem o mundo,
não sabem como é a loucura que é se sentar, às quatro e meia da madrugada, dois dias acordado, bebericando a segunda ou a sétima garrafa de vinho barato
e fumando o trigentésimo maço de cigarro do dia e se olhando no espelho sobre sua coxa e se perguntando o por quê de tudo e o por quê de si
o porquê de estar ali dialogando com o papel e escrevendo e lendo e criticando e sentindo mais do que é saudável sentir
e se perdendo nos cabelos e nos corpos das moças da meia-noite e dos rapazes da meia-noite
e se encontrando nas mãos e bocas e gemidos e no suor das moças e dos rapazes da meia-noite
que viveram mais do que deveriam e amanheceram, ainda vivos, ainda vazios, ao seu lado quando o sol rasga o quarto
e rasga o sono e o quarto que rasga o sono que rasga a alma que rasga o quarto
que te força a levantar, café, banho, cigarro, uísque, adeus, cama, cigarro, uísque,
e o tempo passa e o tempo não passa e quando você dá por si o tempo foi
e a loucura fica aqui, não no happy-hour de seus pseudo-botecos de seus bairros elitistas com cerveja de dois dígitos e cigarros de menta e cafés com vanilla
e de bebidas com fruta e com vocabulário importado de dentro de suas agências de merda que operam full-time e on demand
e que te pagam o suficiente pra vocês acharem que suas vidas não são uma merda e que te pagam o suficiente para vender sua alma
e dentro dos seus carros de preço inflacionado e dentro de seus trânsitos e suas gaiolas no alto de monolitos com um número suficiente de móveis e insuficiente de paixões
e corações vazios demais e ora cheios demais e que amam só com o coração e não com o corpo inteiro e que amam só o corpo pela metade e não o coração e o corpo inteiro
e que riem da desgraça do outros sem serem capaz de rirem da própria merda
e que se gabam do próprio feito e invejam o feito do outro
e que acham que há algum mérito em ser bom e algum mérito em fazer o que fazem e que há algum mérito em viver dentro de um automóvel e de um cercadinho privado e de uma ilusão agridoce
e que não sabem o que é loucura e acham que é loucura fazer bobagem e perder tempo e ser vazio e ser irresponsável e ser como todo mundo que acha que é louco mas nunca viram a cara da loucura
que te acorda e não te deixa dormir e te dorme e não deixa acordar e que sangra que conforta que entorpece que volta e volta e vem e volta
e que você faz questão que volte e que sangre e que asfixie e que triture por quê é a dor que compõe e é a loucura que compõe
e vocês que acham que são loucos na verdade estão mesmo loucos e doentes e perdidos e fodidos,
e pra loucura que é a loucura de vocês basta um filho da puta pra desequilibrar essa loucura construída em cima de rótulos e clichês pra fazer desmoronar essa brincadeira de loucura
essa brincadeira de ser impulsivo e pra fazer desmoronar esse teatro que é essa loucura frágil e estruturada e organizada e com vergonha e com sanidade e com graça,
pra vocês que acham que são loucos,
vocês são loucos só nessa loucura high-society, engravatados e perfumados e sóbrios e sãos e onde os loucos estão enterrados sob a cidade e sob o asfalto e sob o lixo,
por quê daqui de baixo nossa loucura é nossa lucidez e tua lucidez é a nossa loucura.
E daqui de baixo as coisas fazem muito mais sentido.
não viram a cara da loucura, não sabem o que é o desespero que faz rir,
nunca gargalharam sozinhos num quarto enquanto o coração sangra e nunca correram pela madrugada pra lugar nenhum só para estar em movimento,
nunca aceitaram a solidão e nunca aceitaram a loucura e nunca aceitaram a vergonha e nunca aceitaram a dor
e nunca dispararam rumo ao sol e nunca galgaram rumo à treva e nunca dormiram ao relento e nunca acordaram perdidos
e sempre souberam amanhã ontem hoje e daqui a dez e vinte e cinquenta anos e sempre tiveram planos de carreira, de vida, de saúde, de automóvel,
sempre foram seguros e nunca conheceram o terror e o desespero de noite e sozinhos e verdadeiramente sozinhos,
vocês não sabem o que é três ou quatro ou cinco noites viradas acordado assombrado por si mesmo
vocês não sabem o que é se afogar em álcool ressuscitar no dia seguinte e se afogar em fumaça,
afogando-se e asfixiando-se não por prazer, não por querer, mas ser compulsoriamente compelido
por algo maior que si e que o mundo, por esse monstro de ócio e desespero e solitude e ranger de dentes e maxilares travados
e mãos suadas e pupilas dilatadas e roupas rasgadas e egos rasgados à meia noite num quarto de motel mal-iluminado no meio do centro-baixo da cidade-rasgada,
cinza e verde e vermelho rasgando a madrugada de asfalto e de fumaça e de consciência leve e perdida e perturbada,
vocês não sabem o que é vagar sem caminho às quatro da manhã de terça-feira sob os viadutos absolutos que reinam na capital,
se perguntando onde vão descolar a próxima dose de qualquer bebida que seja suficientemente barata e suficientemente forte e suficientemente ruim,
vocês não sabem o que é sentir o vazio dentro de si e o vazio em torno de si e discutir consigo mesmo de dia e de noite de tarde,
na aurora e no crepúsculo da alma que morre e suicida e homicida e vai e volta e se afoga
em paixões vãs de uma noite só ou de duas noites ou de semanas ou de noites perdidas ou noites dispersas,
não sabem o que é querer ver o fogo consumir o mundo e consumir a si e querer virar névoa ou cinza e querer viver e transceder
o mundo e o céu e o inferno que é viver entre aqueles que desejam o céu e não vivem o mundo,
não sabem como é a loucura que é se sentar, às quatro e meia da madrugada, dois dias acordado, bebericando a segunda ou a sétima garrafa de vinho barato
e fumando o trigentésimo maço de cigarro do dia e se olhando no espelho sobre sua coxa e se perguntando o por quê de tudo e o por quê de si
o porquê de estar ali dialogando com o papel e escrevendo e lendo e criticando e sentindo mais do que é saudável sentir
e se perdendo nos cabelos e nos corpos das moças da meia-noite e dos rapazes da meia-noite
e se encontrando nas mãos e bocas e gemidos e no suor das moças e dos rapazes da meia-noite
que viveram mais do que deveriam e amanheceram, ainda vivos, ainda vazios, ao seu lado quando o sol rasga o quarto
e rasga o sono e o quarto que rasga o sono que rasga a alma que rasga o quarto
que te força a levantar, café, banho, cigarro, uísque, adeus, cama, cigarro, uísque,
e o tempo passa e o tempo não passa e quando você dá por si o tempo foi
e a loucura fica aqui, não no happy-hour de seus pseudo-botecos de seus bairros elitistas com cerveja de dois dígitos e cigarros de menta e cafés com vanilla
e de bebidas com fruta e com vocabulário importado de dentro de suas agências de merda que operam full-time e on demand
e que te pagam o suficiente pra vocês acharem que suas vidas não são uma merda e que te pagam o suficiente para vender sua alma
e dentro dos seus carros de preço inflacionado e dentro de seus trânsitos e suas gaiolas no alto de monolitos com um número suficiente de móveis e insuficiente de paixões
e corações vazios demais e ora cheios demais e que amam só com o coração e não com o corpo inteiro e que amam só o corpo pela metade e não o coração e o corpo inteiro
e que riem da desgraça do outros sem serem capaz de rirem da própria merda
e que se gabam do próprio feito e invejam o feito do outro
e que acham que há algum mérito em ser bom e algum mérito em fazer o que fazem e que há algum mérito em viver dentro de um automóvel e de um cercadinho privado e de uma ilusão agridoce
e que não sabem o que é loucura e acham que é loucura fazer bobagem e perder tempo e ser vazio e ser irresponsável e ser como todo mundo que acha que é louco mas nunca viram a cara da loucura
que te acorda e não te deixa dormir e te dorme e não deixa acordar e que sangra que conforta que entorpece que volta e volta e vem e volta
e que você faz questão que volte e que sangre e que asfixie e que triture por quê é a dor que compõe e é a loucura que compõe
e vocês que acham que são loucos na verdade estão mesmo loucos e doentes e perdidos e fodidos,
e pra loucura que é a loucura de vocês basta um filho da puta pra desequilibrar essa loucura construída em cima de rótulos e clichês pra fazer desmoronar essa brincadeira de loucura
essa brincadeira de ser impulsivo e pra fazer desmoronar esse teatro que é essa loucura frágil e estruturada e organizada e com vergonha e com sanidade e com graça,
pra vocês que acham que são loucos,
vocês são loucos só nessa loucura high-society, engravatados e perfumados e sóbrios e sãos e onde os loucos estão enterrados sob a cidade e sob o asfalto e sob o lixo,
por quê daqui de baixo nossa loucura é nossa lucidez e tua lucidez é a nossa loucura.
E daqui de baixo as coisas fazem muito mais sentido.
domingo, 9 de agosto de 2015
O que ficou
Eu não te deixei nada.
Nada senão um fantasma habitando sua cozinha na segunda-feira de manhã,
preparando café forte, mal passado e sem açúcar, resmungando e procurando
a merda do meu analgésico que eu sempre deixava no mesmo lugar.
Nada. Em compensação
ficou com você, na primeira gaveta do teu criado mudo, um pedaço do meu coração,
ainda ensanguentado e ainda pulsando, ainda sangrando
ainda perdido.
Há um espaço vazio na minha cama, há um espaço vazio no banco do passageiro,
há um espaço vazio na sexta de noite e no sábado e no domingo
(e na segunda e na terça e na quarta e na quinta)
e nas manhãs cinzentas e frias e nas noites arrastadas
e nas tardes ensolaradas derretendo sobre o sofá verde
e há espaços preenchidos nos copos de uísque e vinho e bourbon e cerveja e vodka e cachaça,
e depois de você, passou tanta gente,
e as pessoas vem e vão,
e vem e vão,
e vem e vão,
e vem em vão
e eu fico também em vão mas não vou,
e o tempo passa mas não passa, as coisas mudam mas aqui as coisas só se bagunçam,
e eu pediria perdão, mas eu sei que fiz o certo.
Perceba você isso um dia ou não.
Nada senão um fantasma habitando sua cozinha na segunda-feira de manhã,
preparando café forte, mal passado e sem açúcar, resmungando e procurando
a merda do meu analgésico que eu sempre deixava no mesmo lugar.
Nada. Em compensação
ficou com você, na primeira gaveta do teu criado mudo, um pedaço do meu coração,
ainda ensanguentado e ainda pulsando, ainda sangrando
ainda perdido.
Há um espaço vazio na minha cama, há um espaço vazio no banco do passageiro,
há um espaço vazio na sexta de noite e no sábado e no domingo
(e na segunda e na terça e na quarta e na quinta)
e nas manhãs cinzentas e frias e nas noites arrastadas
e nas tardes ensolaradas derretendo sobre o sofá verde
e há espaços preenchidos nos copos de uísque e vinho e bourbon e cerveja e vodka e cachaça,
e depois de você, passou tanta gente,
e as pessoas vem e vão,
e vem e vão,
e vem e vão,
e vem em vão
e eu fico também em vão mas não vou,
e o tempo passa mas não passa, as coisas mudam mas aqui as coisas só se bagunçam,
e eu pediria perdão, mas eu sei que fiz o certo.
Perceba você isso um dia ou não.
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