Fábio estava doente, já fazia um tempo, e se convencera: não havia cura.
E foi assim, então, que Fábio decidiu: iria dormir.
E sempre que a tristeza batia mais pesada ou que as dores acometiam com mais intensidade, ele se recolhia ao seu quarto. Debaixo das cobertas, com os olhos cerrados, se concentrava em adormecer. E adormecia. Respirava pesadamente e dormia profundamente - sequer sonhava. Acordava zonzo, pouco disposto, na verdade. Mas acordava melhor - não acordava bem, mas acordava melhor.
E assim foi levando.
Nos primeiros dias, não teve lá grandes problemas.
Percebeu que, devido à instabilidade de seus humores e dores, seu sono cada vez mais se prolongava. O que antes eram cochilos de vinte ou quarenta minutos agora eram sonos que passavam de duas horas. Três, quatro horas.
Percebeu que seu apetite aumentara durante a madrugada, e passou a fazer uma única refeição por dia - a única que tinha tempo de fazer, e por isso comia em demasia.
Estocara a geladeira com frango e peixe congelado e cozinhava preguiçosamente às duas e meia da manhã, sozinho e apático. Comia aquela refeição triste e sem sabor. Voltava para a cama triste e acordava dia seguinte, sem sabor.
Ia trabalhar cansado, com os ombros pesados. Antes, Fábio dormia entre seis e oito horas diárias. Agora, ele dormia sempre que podia, ultrapassando as doze horas de sono.
Antes, Fábio conversava com as pessoas e se importava. Agora não conversa e tampouco se importa com qualquer coisa. Não lê mais, nem vê TV. Aos poucos, foi se isolando mais e mais.
Aos poucos, o mundo foi-se tornando mais e mais hostil.
Aos poucos, as dores e as tristezas foram dando lugar à sonolência e à letargia.
Aos finais de semana, Fábio não aparecia. Ficava trancado em seu quarto apenas dormindo e, quando não conseguia pegar no sono, corria à farmácia para comprar qualquer remédio que o induzisse - passou a ter um relacionamento sério com Dimenidrinato, depois passou para Clonazepam, Diazepam, Zolpidem, Lorazepam e Bromazepam.
Seus olhos, que antes eram apenas cansados, pareciam petrificados.
No entanto, Fábio jurava estar bem. Sempre que perguntado, dizia estar, no máximo, com um pouco de sono ou "cansado com umas coisas que tem acontecido aí".
O tempo passou e Fábio tirou férias. E, enfim, poderia passar trinta dias inteiros viajando em seu quarto, com as janelas e portas fechadas, só e sonolento.
Chegou em casa naquela sexta-feira e tirou os telefones da tomada. O celular, desligou e deixou sobre a mesa. Tirou os sapatos e as meias, colocou-as dentro do calçado e o abandonou ao pé da escada. A gravata, largou pendurada no corrimão, desabotoou a camisa sem pressa, mas ansioso, e deixou-a vestir o encosto da cadeira. Jogou o cinto ao chão e as calças no cesto. Trancara a porta sem pressa, encheu um copo d'água da torneira mesmo e deixou-o na mesa de cabeceira. Checou a geladeira para ver se tinha comida para a madrugada. Cerrou as janelas e fechou as cortinas, olhou para seu leito e deu um suspiro aliviado. Deitou-se e fechou os olhos, sorrindo levemente com o canto da boca.
O coração andava apertado ainda, mas o sorriso insistia no canto de seus lábios - teimoso e irredutível, sempre invadia seu dia aquele sorriso fora de hora.
O quarto escuro ficou cada vez mais escuro, a escuridão foi se adensando e a respiração foi ficando mais profunda. O silêncio do quarto foi tomando as ruas conforme tomava, também, os pensamentos de Fábio.
Adormeceu.
***
Fábio, que prometeu que sempre que doesse, dormiria.
O gerente ligou, sem sucesso. O telefone celular estava desligado, assim como o telefone residencial.
A empresa tentou entrar em contato, mas Fábio não respondia aos e-mails.
Nas redes sociais, nada. Por fim, acionaram as autoridades.
O carro estava na garagem, com uma leve camada de poeira sobre o capô. A porta estava aberta. O par de sapatos repousava ao pé da escada. O corrimão ostentava sua gravata e a camisa ainda estava sobre a cadeira. Subiram as escadas e empurraram a porta do quarto, que estava entreaberta. Lá dentro, no denso escuro do quarto, não encontraram nada - apenas a cama bagunçada, a janela ainda trancada e as cortinas ainda fechadas. Um dos oficiais gritou da cozinha, e todos desceram para averiguar do que se tratava. O piso estava molhado ainda, a geladeira estava aberta e o freezer derretera, inundando o cômodo. Ao inspecionarem o ambiente, notaram as caixas de benzodiazepínicos e barbitúricos jogadas sobre a pia. A maioria, ainda cheio. A geladeira, vazia.
O caso de Fábio nunca fora solucionado.
Alguns apostariam em suicídio, não estivessem os remédios todos na casa ainda.
Alguns dizem que Fábio dormia tanto que virou, enfim, sonho.
Outros dizem até - e eu sou, particularmente, fã desta versão - que Fábio hibernara por trinta dias inteiros, e que, ao acordar, havia ele mesmo se transformado em um enorme urso pardo, que comera todo o alimento da geladeira e que teria ido embora para viver na floresta.
Se vocês me perguntarem, eu fico com essa última. E torço para que ele tenha encontrado uma vida melhor caçando salmão nos rios e dormindo por meses.
Lembro-me que, semanas depois de seu desaparecimento, foi noticiado a presença de um urso pardo percorrendo uma das principais rodoviais do país. O animal foi capturado e enviado para uma reserva florestal.
Enfim, são apenas estórias.
A mesa dele aqui no escritório já foi ocupada por outro funcionário, e sua casa já foi alugada por outra pessoa.
E eu apenas aprendi que se você não lidar com suas dores e tristezas, das duas uma: ou você é consumido por elas e perde tudo que a vida te reserva, ou se transforma em um grande urso pardo e tem a chance de recomeçar sua vida n'outro lugar.
O Fábio sempre teve muita sorte.
E eu, sempre tive insônia.
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