Hoje fazem dois meses e meio que não saio do meu quarto.
Eu sei, eu sei, vocês devem ter me visto indo comprar cigarro e pão na padaria há uma ou duas semanas, ou podem ter me visto voltando do trabalho no final da tarde, mas de pronto lhes advirto: aquele não sou eu. Eu não saio do meu quarto fazem dois meses e meio.
Eu não sei ao certo como começou, mas...
...aliás, eu sei sim.
...aliás, eu sei sim.
Começou com uma dor de cabeça, forte e intermitente.
Depois veio o formigamento nas mãos e os calafrios - os calafrios que nunca mais pararam.
A falta de apetite, a falta de ar e a cabeça leve.
Ninguém falou nada, mas eu sabia que todos percebiam. Ora, não há como disfarçar o andar fadigado, os passos arrastados e o olhar perdido e cansado. Eu juro que, se o calor do verão não me incomodasse tanto, eu provavelmente teria abdicado dos banhos também - junto com os cafés da manhã que eu tanto apreciava e as caminhadas matinais, que de pronto abandonei.
Fui levando até não ter mais forças.
E aí, aconteceu.
Como numa metamorfose bizarra ou numa troca de peles, eu me desgrudei.
Deixei a carapaça pra trás e caminhei sem ela, nu de carne, músculo e cartilagem.
Como um exoesqueleto moribundo, eu me libertei de meu próprio corpo - sem, no entanto, cessar dele a vida.
Estupefato eu olhei para mim mesmo em terceira pessoa, deitado meio sem vida sobre a cama desarrumada.
O olhar letárgico, a boca entreaberta, o nariz pontudo.... o peito, teimosamente respirando.
Sentei-me - não o corpo - à escrivaninha e pus-me a escrever. Li pela primeira vez em semanas, escrevi pela primeira vez em meses. O cigarro não me fez falta, pela primeira vez em anos.
Enquanto, absorto, me debruçava sobre os papeis, vi-me - agora sim, o corpo - atravessar o quarto mal iluminado. As costas arqueadas, os pés arrastando-se pelo chão, o casaco nas costas. Eram sete da manhã, e meu corpo estava atrasado para o trabalho.
Fazem dois meses e meio que minha carcaça semi-putrefata se arrasta pelas ruas da cidade, tal qual um zumbi. Desalmado, desgraçado e malacabado, com as costas arqueadas e o olhar vazio.
O quarto ainda fede a cigarro, e eu sei que meu corpo não vai durar muito mais tempo.
Faz uma semana que passei a me perguntar, agora preocupado: devo eu regressar a tal estado diminuto e miserável de existência afim de tentar proteger esse cadáver que caminha?
Se tombar o cadáver, dissipo-me também na escura inexistência do cessar da vida?
E o mais importante: regressar à carcaça poderá me impedir de abandoná-la depois?
O olhar letárgico, a boca entreaberta, o nariz pontudo.... o peito, teimosamente respirando.
Sentei-me - não o corpo - à escrivaninha e pus-me a escrever. Li pela primeira vez em semanas, escrevi pela primeira vez em meses. O cigarro não me fez falta, pela primeira vez em anos.
Enquanto, absorto, me debruçava sobre os papeis, vi-me - agora sim, o corpo - atravessar o quarto mal iluminado. As costas arqueadas, os pés arrastando-se pelo chão, o casaco nas costas. Eram sete da manhã, e meu corpo estava atrasado para o trabalho.
Fazem dois meses e meio que minha carcaça semi-putrefata se arrasta pelas ruas da cidade, tal qual um zumbi. Desalmado, desgraçado e malacabado, com as costas arqueadas e o olhar vazio.
O quarto ainda fede a cigarro, e eu sei que meu corpo não vai durar muito mais tempo.
Faz uma semana que passei a me perguntar, agora preocupado: devo eu regressar a tal estado diminuto e miserável de existência afim de tentar proteger esse cadáver que caminha?
Se tombar o cadáver, dissipo-me também na escura inexistência do cessar da vida?
E o mais importante: regressar à carcaça poderá me impedir de abandoná-la depois?
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