até que a gente se pegue tão a frente na estrada a ponto de
olhar pra trás e ver marcado no chão e na terra os passos
traçado em linha reta e certa até o presente,
e só então se apercebe do movimento confuso
dos nossos passos rumo ao incerto ao sacro ofício ou
rumo ao calvário --
-- os dias se perdem de vista,
pra frente ou pra trás não tem mais sol nem lua
nem relógio nem calendário - aboliram a primavera
naquele março e nas semanas seguintes esse diabo
insaciável que se chama capital pediu seus sacrifícios,
e assim se fizeram as ofertas:
ofertaram os astros e com eles
ofertou-se cronos, e foi tudo engolido; então
lhe foi ofertado os velhos e os enfermos e os pobres,
e o bicho riu e os devorou também; então um a um
os homens e mulheres e crianças com os pés descalços
e as mãos feridas e as costas cansadas como numa
brincadeira de roda de mãos dadas foram atirados
nos cânions de sua garganta --
-- titã amaldiçoado, diabo
maldito e deus dos vermes, devorou os homens
um a um e devorou suas lembranças e saboreou
a vida que dele mesmo não emana mas da qual se
alimenta, e assim ficou satisfeito --
-- mas de tanta vida devorada
assim, com pressa e apatia, doeu-lhe dentro do bucho
a história e a lembrança de gente tanta que digeria:
ao diabo cuja existência é vazia estranha ter dentro
de si gente que um dia ria, chorava e vivia --
-- e diz-se que dentro do
diabo malfadado de algum jeito aquela gente
se levantou e com golpe de pexera o bucho do
deus-bode se abrira: era gente viva que dali de
dentro saia e sorria, cuja história o coisa-ruim
jamais possuiria:
contando conto assim
parece tudo de mentira, mas vê bem que todo diabo
se alimenta de sal de lágrima e de suor, mas não tem
bicho de chifre, criado pelo homem ruim que suga
a vida do outro homem, que consiga engolir e digerir
a história da gente que vive, que reza e que trabalha
de sol a sol sem se cansar:
essa é a história de um povo todo
sem nome e sofrido que todo dia lamenta mais um
filho perdido mas que toda manhã se põe de pé pra
trabalhar pois sabe que um dia esses astro todo que o
diabo comeu um dia ainda volta a brilhar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário