quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Vocês que acham que são loucos

Vocês que acham que são loucos
não viram a cara da loucura, não sabem o que é o desespero que faz rir,
nunca gargalharam sozinhos num quarto enquanto o coração sangra e nunca correram pela madrugada pra lugar nenhum só para estar em movimento,
nunca aceitaram a solidão e nunca aceitaram a loucura e nunca aceitaram a vergonha e nunca aceitaram a dor
e nunca dispararam rumo ao sol e nunca galgaram rumo à treva e nunca dormiram ao relento e nunca acordaram perdidos
e sempre souberam amanhã ontem hoje e daqui a dez e vinte e cinquenta anos e sempre tiveram planos de carreira, de vida, de saúde, de automóvel,
sempre foram seguros e nunca conheceram o terror e o desespero de noite e sozinhos e verdadeiramente sozinhos,
vocês não sabem o que é três ou quatro ou cinco noites viradas acordado assombrado por si mesmo
vocês não sabem o que é se afogar em álcool ressuscitar no dia seguinte e se afogar em fumaça,
afogando-se e asfixiando-se não por prazer, não por querer, mas ser compulsoriamente compelido
por algo maior que si e que o mundo, por esse monstro de ócio e desespero e solitude e ranger de dentes e maxilares travados
e mãos suadas e pupilas dilatadas e roupas rasgadas e egos rasgados à meia noite num quarto de motel mal-iluminado no meio do centro-baixo da cidade-rasgada,
cinza e verde e vermelho rasgando a madrugada de asfalto e de fumaça e de consciência leve e perdida e perturbada,
vocês não sabem o que é vagar sem caminho às quatro da manhã de terça-feira sob os viadutos absolutos que reinam na capital,
se perguntando onde vão descolar a próxima dose de qualquer bebida que seja suficientemente barata e suficientemente forte e suficientemente ruim,
vocês não sabem o que é sentir o vazio dentro de si e o vazio em torno de si e discutir consigo mesmo de dia e de noite de tarde,
na aurora e no crepúsculo da alma que morre e suicida e homicida e vai e volta e se afoga
em paixões vãs de uma noite só ou de duas noites ou de semanas ou de noites perdidas ou noites dispersas,
não sabem o que é querer ver o fogo consumir o mundo e consumir a si e querer virar névoa ou cinza e querer viver e transceder
o mundo e o céu e o inferno que é viver entre aqueles que desejam o céu e não vivem o mundo,
não sabem como é a loucura que é se sentar, às quatro e meia da madrugada, dois dias acordado, bebericando a segunda ou a sétima garrafa de vinho barato
e fumando o trigentésimo maço de cigarro do dia e se olhando no espelho sobre sua coxa e se perguntando o por quê de tudo e o por quê de si
o porquê de estar ali dialogando com o papel e escrevendo e lendo e criticando e sentindo mais do que é saudável sentir
e se perdendo nos cabelos e nos corpos das  moças da meia-noite e dos rapazes da meia-noite
e se encontrando nas mãos e bocas e gemidos e no suor das moças e dos rapazes da meia-noite
que viveram mais do que deveriam e amanheceram, ainda vivos, ainda vazios, ao seu lado quando o sol rasga o quarto
e rasga o sono e o quarto que rasga  o sono que rasga a alma que rasga o quarto
que te força a levantar, café, banho, cigarro, uísque, adeus, cama, cigarro, uísque,
e o tempo passa e o tempo não passa e quando você dá por si o tempo foi
e a loucura fica aqui, não no happy-hour de seus pseudo-botecos de seus bairros elitistas com cerveja de dois dígitos e cigarros de menta e cafés com vanilla
e de bebidas com fruta e com vocabulário importado de dentro de suas agências de merda que operam full-time e on demand
e que te pagam o suficiente pra vocês acharem que suas vidas não são uma merda e que te pagam o suficiente para vender sua alma
e dentro dos seus carros de preço inflacionado e dentro de seus trânsitos e suas gaiolas no alto de monolitos com um número suficiente de móveis e insuficiente de paixões
e corações vazios demais e ora cheios demais e que amam só com o coração e não com o corpo inteiro e que amam só o corpo pela metade e não o coração e o corpo inteiro
e que riem da desgraça do outros sem serem capaz de rirem da própria merda
e que se gabam do próprio feito e invejam o feito do outro
e que acham que há algum mérito em ser bom e algum mérito em fazer o que fazem e que há algum mérito em viver dentro de um automóvel e de um cercadinho privado e de uma ilusão agridoce
e que não sabem o que é loucura e acham que é loucura fazer bobagem e perder tempo e ser vazio e ser irresponsável e ser como todo mundo que acha que é louco mas nunca viram a cara da loucura
que te acorda e não te deixa dormir e te dorme e não deixa acordar e que sangra que conforta que entorpece que volta e volta e vem e volta
e que você faz questão que volte e que sangre e que asfixie e que triture por quê é a dor que compõe e é a loucura que compõe
e vocês que acham que são loucos na verdade estão mesmo loucos e doentes e perdidos e fodidos,
e pra loucura que é a loucura de vocês basta um filho da puta pra desequilibrar essa loucura construída em cima de rótulos e clichês pra fazer desmoronar essa brincadeira de loucura
essa brincadeira de ser impulsivo e pra fazer desmoronar esse teatro que é essa loucura frágil e estruturada e organizada e com vergonha e com sanidade e com graça,
pra vocês que acham que são loucos,
vocês são loucos só nessa loucura high-society, engravatados e perfumados e sóbrios e sãos e onde os loucos estão enterrados sob a cidade e sob o asfalto e sob o lixo,
por quê daqui de baixo nossa loucura é nossa lucidez e tua lucidez é a nossa loucura.
E daqui de baixo as coisas fazem muito mais sentido.

Nenhum comentário:

Postar um comentário