Rói meus pulmões a fumaça densa e seca do primeiro cigarro da manhã.
Eram três horas quando eu acordei depois de sonhar com você.
Eram três horas quando saí de um universo onde você existia para voltar à realidade
Para voltar à sua ausência
Quem nunca se sentou em um quarto só
No escuro, só, às três da madrugada
As lágrimas represadas detrás dos olhos
O grito sufocado e aprisionado na garganta
As mãos trêmulas sobre a cabeça
Os cabelos desgrenhados
O olhar perdido
O peito prestes a explodir e levar consigo toda Nagasaki
A alma retorcida
Sugada
Escorrida
O silêncio da demência rasgando a noite em dez
os dedos inquietos batucando sobre a mesa
A caneta no papel
As cicatrizes nos braços e nos pulsos e na alma
E a sanidade se esvaindo, aos poucos e então aos montes
E a sobriedade sendo suprimida,
com fumo
com álcool
com querosene
com poesia
E a sua ausência tomando cada vez mais espaço
Até ontem eu tinha algo
Hoje, sou cheio do vazio que você deixou
E o que mais me dói
Saber que você me esvaziou e de mim, não levou nada.
Me deixou carcaça
E se foi, fantasma.
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