terça-feira, 5 de novembro de 2019

Sombra

...Eu te vi diversas vezes nos últimos meses.

Vi você nas esquinas e nas ruas; vi você nas bitucas de cigarro paraguaio e nas cervejas despretensiosas, nos bares sujos do centro.
Vi você, passando ali perto do cemitério - aliás, te vi no cemitério!
Te procurei , também.
Fatalmente, sempre falhei em te encontrar, mas te vi nas galerias dos museus e nas fachadas cinzas e feias da cidade.
Eu te vi na chuva morna de fim de tarde.
Eu te vi na noite lenta que tarda a findar.
Eu te vi de soslaio nas marchas de rua e nos carnavais, e eu tenho quase certeza que te vi outro dia ali perto da Angélica.
Seus olhos eu vi em cada crise e em cada saudade.
Em cada ato mal pensado vi seu olhar de reprovação embebido em empatia como só você é capaz de fazer.
Vi você em barcos de papel e em sorvetes, em livros e em estantes, em cartaz nos cinemas e nas minhas notas de rodapé.

Eu te vi tantas vezes que nem parece que você se foi para onde eu não posso te encontrar mais.

Eu te vi em todo lugar, e tentei te achar em todos os lugares, mas você não deixou rastro nenhum.

Para além disso, eu tentei ainda te encontrar em todos os sorrisos - e, graças a deus, eu falhei todas as vezes que tentei.

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