quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

I - Não é só a sua voz

Não é só o que você fala,
É a sua voz, é o que você fala
E a forma como reverbera na lembrança
E como ecoa na memória.

Sua voz indecente que me faz acordar,
Que não me deixa dormir
E que me coloca para dormir
Ainda maravilhado e assombrado.

Que não espera convite para entrar
Pela porta da sala ou pela porta do quarto
E que não me espera acordar
Para ir embora antes da aurora
- e que não me abandona mesmo ausente.

Ausência! Ah, Ausência!
Assim, egrégora, fantasma, esfinge!
Não te conheço, mas te conheço tão bem!
- me conheces?

Não é só o som doce da sua voz,
O ritmo sereno da sua prosódia
Nem as formas e signos que evoca
- tesouros resgatados do fundo de um oceano que poucos exploraram!

Não é só a calmaria da melodia que evocas,
Ou a tormenta que anuncias;
A forma como alcança o horizonte
E que arremessa longe a esperança
- agridoce.

És Babalon domando a fera,
Prometeu tomando o fogo,
És a foice que solve!,
O golpe que coagula!

Não és divina, pois existe!
Não és profana, pois não o é!
És mais que isso
Pois caminha na terra dos incautos
Com a graça de um anjo submerso 

É a forma como articula suas consoantes,
Como enxerga além da bruma,
É a forma como me alcanças,
Como me fere e como me cura...!

Não, não é só pela sua voz,
É só pelo que és
Pela beleza que é te ter
Mesmo sabendo que jamais serás minha.

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