Eu vou tentar explicar de um jeito que você talvez entenda.
O lance é: imagina que tu pega um comprimido de ritalina. Aliás, a cartela inteira, aí cê toma tudo num gole só de café. Aliás, não, você faz aquele esquema que eu sempre falo: engole metade dos comprimidos, o resto cê macera e cheira.
Aliás, é isso!:
Imagina uma cocaína. Mas uma que não existe, com uma taxa de pureza tão alta que nem o pó recém saído da refinaria consegue alcançar. Um negócio tão fino que faria Pablo Escobar ficar baqueado, saca?
Daí cê subtrai dessa equação a parte da coriza e dos sangramentos espontâneos. Tira a parte que cê fica revirando na cama quase cuspindo o coração sozinho no quarto -- aliás, deixa essa última parte. A vontade de fumar cê aumenta.
Imagina um bem estar tão pesado e expansivo que ele precisa rasgar tua pele pra ocupar espaço na materialidade do mundo. Imagina um bem estar que seja tão absoluto que não há indústria farmacêutica que consiga sintetizar: não há benzodiazepínico, opióide ou o caralho que for que te entregue essa plenitude.
Mas é um bem estar que rasga a pele, contrai os músculos até a beira da cãibra e que faz o coração ser vomitado. Esmaga o peito, machuca as costas, desfigura o semblante.
Um bem estar tão consumista que precisa engolir o mundo todo de uma vez; imagina um incêndio florestal, mas que pega todo o continente asiático e meia África. Imagina Gobi e o Saara como dois grandes espelhos de areia fundida.
Imagina um grito que não sai de ti e que transita entre o peito e a garganta, e que é tão absurdo que não pode ser dado pois não há aparato vocal no mundo capaz de realizá-lo. Um grito que, represado detrás de maxilares travados, faz embotar os olhos em lágrimas que são desespero e desespero.
É o mar quebrando nas falésias
É o cânion, vertiginoso, tragando os céus
É um furacão que força o paraíso à terra
Imagina agora um nada, ocupando espaço; um nada que cresce e se expande.
Saca o absurdo?
É tipo um trem batendo num muro.
O muro é você, o trem é essa coisa
Deu pra pegar?
Nenhum comentário:
Postar um comentário