E eu me desfaço em fumaça
Na ponta de um cigarro me elevo
E me perco mais uma vez
Sem dormir há décadas,
Ciscando paixões e perdendo amores
De vista e a vida que se esvai e desaparece
Tão rápida quanto o sol que fenece
E morre e entardece,
Me derramo nos bares, perdidos
Os olhares e os corpos
Entre os copos - não sei dizer onde há mais vazio
E vai-se a vida, salpicada
E triturada, defumada
E mergulhada em querosene:
Cinzas que se perdem na memória
Passa a vida e passa o tempo
Passam os amores como automóveis
E morremos silenciosos
Ociosos e autoabandonados
A lua se esconde como nós
As estrelas se perdem
As constelações não aparecem
Como elas, nós, os que padecem
Como cometas cruzamos nossas histórias
E deixamos um rastro de pó e poeira na memória
Não-periódicos, Halleys esporádicos
que somem no infinito e viram estória
Nos destruímos para nos encontrar
Nos perdemos e nos reconstruímos
Nos recriamos e no fim notamos
Que de nada adiantou - o que era pra ser?
Niilismo que se transforma em hedonismo;
Mediocridade que se converte em apreciação.
Megalomaníacos, hipomaníacos,
Hipocondríacos, distímicos e deprimidos
Somos a nata do que sobrou
O resto daquilo que foi e não mais voltou
Nos remontamos pelas manhãs
Para podermos nos quebrar nas madrugadas
Rasga o céu o primeiro raio do sol.
E eu me desfaço em fumaça.
Na ponta de um cigarro me elevo,
E me perco mais uma vez.
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