quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Um Vazio

Ao lado daquele homem caminha um vazio. Um vazio que não possui nome: não é saudade, tampouco é nostalgia. Não é desses sentimentos passíveis de serem nomeados. É um vazio que é único, e que apenas a ele poderia pertencer. Decerto tampouco é como os demais; este vazio não denota, passivamente, a falta de algo: é um vazio que exerce presença.
A ele - o vazio - falta a condição daquelas coisas que são de fato vazias; é um vazio que quase pode ser tocado - é paradoxalmente pesado. Vê como ele - o homem - anda curvado? É exatamente isso: se rememorar é reviver, esse é um vazio, então, que não pode jamais morrer.
Não é também um vazio que se basta em ser; não, este é um vazio violento, que machuca, rasga, sangra e escapa aos olhos menos atentos. Disse-me certa vez o homem que "não é um vazio silencioso, também. É um vazio que se manifesta constantemente; sussurra de dia e grita de noite, e está presente sempre que me lembro daqueles olhos, os únicos capazes de me enxergar a alma".
Há ali uma memória que se nega a escapar, percebo.
Há ainda, naquele espaço que o vazio ocupa, o espaço que fora outrora de outrem - não é amorfo, está lá por uma razão. Ainda há marcas visíveis ali, marcas essas que transpõe o tempo e a carne.
Não se alimenta de arrependimentos ou de inapagáveis sentimentos - o vazio se basta.
"Ele é real", ele me diz, "pois há algo ali que não morreu".

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