quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Não há deus

Não existe deus senão o Capital
Não existe pré-determinação
Senão aquela imposta aos corpos
Pelo Capital

O livre-arbítrio é uma mentira
São nem sete da manhã
Tempo, não há também
Senão o tempo que é também imposto pelo Capital

Os bom-dias arrastados
As quebradas nubladas
Os cafés apressados e os olhos turvos e olhares enevoados
São, também, o Capital

Não ver o filho crescer
Não ver o ano passar
Não ver o sol nascer
Não ver o amor despertar
Não ter o que comer
Não poder estudar
Não ver a vida acontecer
Não ter pernas para andar
Nem ter asas para voar
É, tudo isso, o Capital

Não há o que se querer,
Nossa fé é no capital
Que não mora aqui, no canto da Sapopemba,
Mas alhures, onde o sol é cinza e a gente, civilizada

Não há vida, há o Capital
Boa sorte para quem fica
Pois já passam das sete
De uma segunda-feira sepulcral

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