segunda-feira, 25 de maio de 2020

Névoa

Há uma névoa no horizonte, densa, até onde alcança o olhar:
Eu estico os meus braços e não vejo minhas mãos -
e, pra ser bem sincero, eu não sinto também a ponta dos meus dedos.
Os pés caminham, mas não parecem sair do lugar.

É difícil. Os abraços se perderam no passado;
os beijos e as mãos dadas ficaram na memória;
as risadas e as conversas e a música dos bares e botecos
são só ecos que reverberam no vazio da neblina.

A luz, diáfana, denuncia que há sol, ainda, algures.
O chão, duro, é o último lastro de materialidade que me resta;
de resto, só há névoa, memória e esse eco quase inaudível
e esse frio típico de uma manhã cinza de maio.

Sou como uma esponja imersa em soro fisiológico;
insípido, estéril, mudo e surdo -
eu ainda respiro? Eu ainda existo?
Ainda estamos em maio?

Há um calendário na parede marcando um distante 30 de março.
Há poeira sobre os livros, há plantas florescendo no quintal,
há semanas que não vejo meus amores e há momentos que penso,
inebriado pela névoa, que não tornarei a vê-los.

Ainda é tarde? Já é cedo?
Não sei que horas são e não me importo.
Sei que nos hospitais e nos cemitérios o tempo ainda passa,
mas aqui em cima, no quarenta-e-dois, ele parou.

(as flores que desabrocham como se o mundo ainda fosse o mesmo
me respondem: "sim, ainda estamos em maio";
"sim, ainda há beleza que valha a pena de se viver" e me lembram
que os botões só se desprendem para florescer ainda belos no ano seguinte)

Aliás, as flores que desabrocham e ainda crescem em maio
em meio a tão enfastiante neblina são minha recordação diária
de que o tempo ainda se move, discretamente,
sorrateiro, silencioso - aparentemente inofensivo.

E eu olho para as paredes, para as nuvens e para o sol -
cada dia um novo sol, nunca o mesmo - e eu acho bom
que depois dessa neblina (que mais se parece com a fumaça preta
exalada dos escapamentos enferrujados dos caminhões da Dutra) --

-- que depois dessa neblina haja mesmo muito sol, e que os abraços
sejam intermináveis - Ah!, eu espero morrer sufocado dentro dos
seus braços! - e que as músicas não cessem nunca mais
e que o tempo corra, como nunca, para longe dos funerais e dos leitos de UTI;

Que depois dessa neblina não haja mais frio,
que não haja mais pressa!, que não haja mais pressa e nem muita paciência!

Que nunca mais nos sintamos sós e cegos como hoje
e que nunca mais nos esqueçamos dos tempos em que o tempo nos abandonou
e nos deixou como hoje: nus, pobres e desamparados (como sempre estivemos):

Maldito o tempo em que o tempo se tornou nosso espelho.
Abençoado aqueles dentre nós que arremessaram,
como Davi contra Golias, com a força de suas fundas o coração,
feito pedra, contra o espelho do nosso tempo.

Abençoados os vândalos, delinquentes e desviantes
que como enviados profanos de um deus que não conhecemos
fizeram-se mártires e nos libertaram; Abençoados os que desafiam Golias,
os que desafiam Cronos, os que desafiam a vida e que fatalmente

triunfam sobre a morte.

Um comentário: