- O que eu faço?
Eu o encarei por alguns instantes, em silêncio.
Os olhos castanhos atravessavam minha alma. Eu sabia que, sob seus pés, não havia chão. Imaginava as borboletas em seu estômago. O nó em seu espírito. O grito preso na garganta.
Os olhos castanhos atravessavam minha alma. Eu sabia que, sob seus pés, não havia chão. Imaginava as borboletas em seu estômago. O nó em seu espírito. O grito preso na garganta.
- O que eu faço? - Ele repetiu.
Eu sabia a resposta desde o início. Mas, como boa atriz, fingi estar em dúvida pra aliviar a barra dele. Arrumei as pulseiras, mexi nos cabelos e olhei pra ele, calma, mas fingindo alguma angústia. Ser óbvia aqui só o deixaria mais desconcertado.
- Olha... O que você tá me dizendo é que, basicamente, tu tá apaixonado por um guri que não mora aqui nem em lugar nenhum, é isso?
- É. Ele é artista, Mora cada hora em um lugar.
- E ele é basicamente a metade de você que você nunca encontrou?
- É, mas tem o Fábio...
- É. Então, basicamente, é deixar um amor por uma paixão. É isso?
- Sim. Eu acho...
- Então é basicamente trocar o certo pelo incerto? Trocar um sim por um talvez? Trocar uma companhia certa por uma dor que vai e volta, e você nunca vai saber quando volta? É optar, conscientemente, pelo amor que dói, pela distância, pela saudade e pela espera? Uma paixão perene, um sofrimento contínuo, um amor sazonal?
- É. Ele é artista, Mora cada hora em um lugar.
- E ele é basicamente a metade de você que você nunca encontrou?
- É, mas tem o Fábio...
- É. Então, basicamente, é deixar um amor por uma paixão. É isso?
- Sim. Eu acho...
- Então é basicamente trocar o certo pelo incerto? Trocar um sim por um talvez? Trocar uma companhia certa por uma dor que vai e volta, e você nunca vai saber quando volta? É optar, conscientemente, pelo amor que dói, pela distância, pela saudade e pela espera? Uma paixão perene, um sofrimento contínuo, um amor sazonal?
Ele me encara por alguns momentos. Ele vai dizer que eu tenho razão. Ele vai optar pelo certo ao incerto.
Silêncio.
Ele respira fundo olhando para os próprios pés, solta o ar pesadamente e se vira para mim:
Silêncio.
Ele respira fundo olhando para os próprios pés, solta o ar pesadamente e se vira para mim:
- Você tem razão. Eu não...
- Vai. Você deve. Vai.
- Vai. Você deve. Vai.
Porquê eu acredito que, sem uma grande dor, não há por quê viver. E ele sabe que eu tô certa, mesmo sem saber exatamente como.
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