sexta-feira, 19 de junho de 2015

Fantasma II

O João começou a falar. O Pedro só ouvia. O Beto dava risada.
Eu só tava interessado na cerveja.

Faz quanto tempo já?
Dois anos? Três anos?
Eu não sei. Me recusa a fazer essa conta. Foi mais do que devia.
Enquanto a terceira garrafa seca, eu me pergunto se um dia você vai me perdoar.

Aliás, deixe-me começar do começo.
Eu, Pedro, João e Beto fomos pro bar. Um bar aqui no centro velho, perto daquele bar em que eu ia com Você.
Eu caminhei leve. Eu lembro de você sempre que passamos por aqui.
Sentamos no bar e começamos a conversar e a beber.
O bar, como sempre, tá cheio. Como sempre, cheio de gente jovem.
Eu comecei a beber e me calei, de súbito.
De súbito, eu pensei ter visto você.
Foi rápido.
Ela passou depressa, foi até o balcão pedir mais cerveja.
Ela, do alto  de seu metro e setenta? Sessenta e cinco?
Foi rápido, eu mal consegui vê-la, e por um momento pensei que era você.
Faz o quê? Três anos que eu fui embora? Três anos que eu morri na sua vida?
Eu, que morri sem deixar lápide, sem te dar o direito de uma despedida decente.
Eu roubei teu direito de velar meu corpo.
Sem lápide, sem epitáfio.
Virei cinzas da noite pro dia.
Digo... A última vez que nos vimos, lembra? Eu sabia que seria uma despedida, mas não te contei.
Será que você vai me perdoar por isso algum dia?
Aliás, será que você vai entender isso algum dia?
No alto da alcoolemia proporcionada pela quinta garrafa, eu começo a me afogar em nosso passado.
Em tantas pontas soltas que ficarão soltas pra sempre.
Em tantos assuntos inacabados e beijos interrompidos.
Em tantas promessas sumariamente quebradas.
Você nunca vai me entender. Eu fiz o que eu tinha que fazer.
E eu pago o preço por isso.
Dói. E não há cigarro, não há bebida, não há droga que me faça aceitar que tinha que ser assim.
Eu não tenho perdão.
Eu nem consigo imaginar... Sabe, você sempre foi forte. E eu sempre contei com isso para me deixar com um pouco menos de remorso.
Você sempre foi tão leve, solta e independente, que eu pensei que não ia doer em você.
E, na verdade, eu não sei se doeu - nem quanto doeu.
Eu sei que não importa em quantos maços eu me afogue, eu não consigo parar de me culpar.
Eu espero que um dia você possa me entender e me perdoar.
Eu espero que um dia eu tenha paz.
Você passou de novo em direção ao balcão.
Emudeci.

- Tá olhando a mina ali? - o Beto perguntou, com um sorriso de canto de boca.
- Quem é que você tá olhando, hein? - ele indagou.
- Um fantasma - respondi.

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