Saiba que, um dia, você vai aprender – e vai ser da pior
forma possível – que, por vezes, para manter-nos vivos, é necessário matar um
grande pedaço de si. Digo que vai ser da pior forma possível com certeza do que
digo, pois só há uma forma de aprender isso: na prática. Digo que vai acontecer
pois, caso nunca aconteça, temo dizer-lhe que você nunca viveu. Mais ainda,
preciso advertir-lhe de alguns pontos cruciais: vai ser sempre cedo demais; vai
sempre doer demais; vai sempre sangrar mais do que você pensou que sangraria. E
talvez nunca cicatrize. Mas assim é a vida, e só é vida se sentirmos dor. Saiba
que, invariavelmente, esse pedaço seu que você irá sacrificar conterá tudo o
melhor que há em você. Saiba também que – e aqui é um palpite meu – esse pedaço
seu nunca se encontra de fato em você, mas em outrem. Saiba que esse pedaço irá
lhe faltar para o resto da sua vida. Tenha em mente que as lágrimas que você
derramar nos primeiros dias poderiam muito bem inundar toda a Ásia. E que as
lágrimas que você vai chorar no resto da sua vida, toda a América. Mas isso não
importa, o ponto crucial é que você nunca vai, de fato, parar de lamentar essa
perda. Mesmo que você não chore, tenha certeza que um pedaço de você ainda
lamentará essa perda e ainda estará enlutada no final da sua vida. A boa
notícia é que essa dor torna-se suportável, de alguma forma, em algum momento.
Eu nunca entendi – e nem vou entender – como acontece. Eu nunca tive sagacidade
suficiente para entender se era aos poucos ou de repente. Eu sei que passa. A
dor, passa. Mas no lugar dela, fico outra coisa. Que dói menos, mas incomoda
mais. Um misto de angústia e saudade, luto e nostalgia. Uma mágoa que não é
mais física, é espiritual. Saiba que quando acontecer, vai ser visceral, vai
ser cruel, vai ser terrível. Não tem como não ser. Saiba que ninguém vai
entender. Não importa o quão bem você explique, essa dor é de um jeito pra cada
pessoa. Essa dor é só sua. Ela te define. Mas saiba também que esse pedaço seu
que morre, no entanto, não morre de todo. Ele passa a existir em outro. E eu
espero que você tenha a sensibilidade de saber tomar um pedaço novo e alocar em
si – um pedaço que outra pessoa também matou para entregar a você. Pois veja
bem, por mais que sempre será nosso braço a cometer o homicídio, jamais será
nossa culpa. Jamais será de bom grado. Jamais será de alma limpa e coração
leve. A dor que você vai sentir então é a dor irmã da dor daquela pessoa que,
no mesmo momento do teu sacrifício, se sacrificou também. Você mata um pedaço
de si para que ela mate um pedaço de si. Ela leva o melhor de você e deixa
contigo o melhor dela. Mesmo que vocês se separem, que nunca mais se vejam,
essa dor de vocês é única, pertence somente a vocês. Essa dor os mantém unidos.
E assim, a gente vai vivendo. Com os corações remendados. Com os espíritos marcados.
Pois bem, saiba sempre: um dia, você vai morrer. E depois, de novo. E de novo.
E sempre da pior forma possível. Sempre dando mais do que estava disposto a
dar. Sempre doendo mais do que você pensou que iria doer. Sempre matando o
pedaço de você que você mais ama para poder sobreviver.
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