terça-feira, 16 de junho de 2015

Resiliência

Saiba que, um dia, você vai aprender – e vai ser da pior forma possível – que, por vezes, para manter-nos vivos, é necessário matar um grande pedaço de si. Digo que vai ser da pior forma possível com certeza do que digo, pois só há uma forma de aprender isso: na prática. Digo que vai acontecer pois, caso nunca aconteça, temo dizer-lhe que você nunca viveu. Mais ainda, preciso advertir-lhe de alguns pontos cruciais: vai ser sempre cedo demais; vai sempre doer demais; vai sempre sangrar mais do que você pensou que sangraria. E talvez nunca cicatrize. Mas assim é a vida, e só é vida se sentirmos dor. Saiba que, invariavelmente, esse pedaço seu que você irá sacrificar conterá tudo o melhor que há em você. Saiba também que – e aqui é um palpite meu – esse pedaço seu nunca se encontra de fato em você, mas em outrem. Saiba que esse pedaço irá lhe faltar para o resto da sua vida. Tenha em mente que as lágrimas que você derramar nos primeiros dias poderiam muito bem inundar toda a Ásia. E que as lágrimas que você vai chorar no resto da sua vida, toda a América. Mas isso não importa, o ponto crucial é que você nunca vai, de fato, parar de lamentar essa perda. Mesmo que você não chore, tenha certeza que um pedaço de você ainda lamentará essa perda e ainda estará enlutada no final da sua vida. A boa notícia é que essa dor torna-se suportável, de alguma forma, em algum momento. Eu nunca entendi – e nem vou entender – como acontece. Eu nunca tive sagacidade suficiente para entender se era aos poucos ou de repente. Eu sei que passa. A dor, passa. Mas no lugar dela, fico outra coisa. Que dói menos, mas incomoda mais. Um misto de angústia e saudade, luto e nostalgia. Uma mágoa que não é mais física, é espiritual. Saiba que quando acontecer, vai ser visceral, vai ser cruel, vai ser terrível. Não tem como não ser. Saiba que ninguém vai entender. Não importa o quão bem você explique, essa dor é de um jeito pra cada pessoa. Essa dor é só sua. Ela te define. Mas saiba também que esse pedaço seu que morre, no entanto, não morre de todo. Ele passa a existir em outro. E eu espero que você tenha a sensibilidade de saber tomar um pedaço novo e alocar em si – um pedaço que outra pessoa também matou para entregar a você. Pois veja bem, por mais que sempre será nosso braço a cometer o homicídio, jamais será nossa culpa. Jamais será de bom grado. Jamais será de alma limpa e coração leve. A dor que você vai sentir então é a dor irmã da dor daquela pessoa que, no mesmo momento do teu sacrifício, se sacrificou também. Você mata um pedaço de si para que ela mate um pedaço de si. Ela leva o melhor de você e deixa contigo o melhor dela. Mesmo que vocês se separem, que nunca mais se vejam, essa dor de vocês é única, pertence somente a vocês. Essa dor os mantém unidos. E assim, a gente vai vivendo. Com os corações remendados. Com os espíritos marcados. Pois bem, saiba sempre: um dia, você vai morrer. E depois, de novo. E de novo. E sempre da pior forma possível. Sempre dando mais do que estava disposto a dar. Sempre doendo mais do que você pensou que iria doer. Sempre matando o pedaço de você que você mais ama para poder sobreviver.

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