quinta-feira, 18 de junho de 2015

Diálogos #2

- Pois bem - ele indagou, apoiando levemente o queixo sobre o polegar da mão direita, cujo cotovelo espetava o braço de couro marrom-escuro da cadeira do consultório - O que acontece?
O Dr. Tristão - sim, esse é o nome dele. Os pais o batizaram assim por conta da lenda de Tristão e Isolda. Ironicamente, Tristão formou-se psiquiatra - mantinha a pose que se esperava de um médico em sua posição: austero, rígido, versado, direto. Mais que isso, tinha em seu semblante algo que todo paciente desse tipo de especialista espera de um bom médico psiquiatra: ele mesmo parecia precisar desse tipo de serviço.
Calvo, cabelos negros bagunçados, cerca de quarenta e tantos anos, óculos de armação fina e olhos verdes profundos. Algo naquele olhar me lembrava o personagem de Jack Nicholson em "O Iluminado". Mais de uma vez me perguntei se não era ele quem deveria se sentar deste lado do consultório. Uma vez me perguntei se ele não seria um paciente do pobre Dr. Tristão que há tempos atrás o sequestrou para ter acesso ao armário de amostras grátis e que agora passa a vida receitando remédio errado para pacientes, por diversão.
Pausa. Ele me pergunta algo.
Eu não ouvi merda nenhuma que ele disse até aqui.
Meu olhar vago me denuncia. Merda! Esse cara vai achar que eu sou louco.
Me concentro. Ele repete:
- Então, Igor, o que acontece?
Quanto tempo eu fiquei sem responder?
- Doutor, eu não sei. Acho que estou viciado.
- Em que? Cigarro? Cocaína? Álcool? - o safado se lembra de todas as nossas outras conversas.
- Não, doutor. Acho que o buraco é mais embaixo... - odeio essa expressão. Por quê fui usar essa expressão?
- Pois bem...?
- Doutor, acho que eu sou viciado em tristeza.
Ele não diz nada, apenas me encara. Aqueles olhos verdes, algo neles me dá algum consolo. Como se ele já soubesse do que eu estava falando.
Eu continuei: "Veja bem... Eu não tenho a vida que eu queria (na verdade, nem próximo disso.), muito menos vejo qualquer chance dessa vida me levar onde eu quero. Todo esforço que fiz para melhorá-la foi prontamente sabotado por mim mesmo. Claro, eu nunca notei. Na verdade, isso é uma leitura bem recente do que eu tenho feito, Doutor. Por exemplo, começo a perceber o quão pouco me doei a todos os meus sonhos e projetos, e entendo que se estes deram errados ou sequer saíram do papel, foi devido à minha própria (in)ação. Meus relacionamentos amorosos que fracassaram de súbito e me fizeram entrar em profunda depressão, hoje vejo que ruíram graças à minha frieza e meu medo de me expôr. E quando eu deito a cabeça sobre o travesseiro e me pego acordado por horas - digo, eu poderia tentar dormir ou meditar, mas opto, conscientemente, pela insônia e cansaço no dia seguinte. E essas horas de sono perdidas, invisto em que? Planos? Carreira? Não, gasto tudo em amores perdidos, planos fracassados, fantasias de como seria minha vida se esta pessoa ou aquela me deixasse ou morresse. Me esforço, a todo custo, para ver minhas lágrimas fluírem o mais rápido que puderem. Arquiteto brigas e discussões com aqueles que amo para me machucar depois. Me afasto das pessoas para protegê-las e para me punir. Às vezes até machuco outras pessoas, só para sentir a mágoa e o pesar de noite, enquanto o sono não vem. Me sinto sozinho, Doutor, e, na verdade, isso me agrada de alguma forma. Me sinto sozinho e quero continuar me sentindo assim..."
Ele me encarou por alguns segundos.
Inspirou profundamente. Louco. Certeza que agora não resta dúvidas. Esse cara tem certeza que sou louco.
Tristão se levantou. Se dirigiu ao armário de amostras grátis e pegou uma caixa de qualquer coisa. Abriu, colocou um comprimido na boca e engoliu seco. Me olhou.
- Me parece, Igor, que seu problema é grave.
- Doutor...?
- Você sofre de algo que a ciência ainda não compreende muito bem, uma patologia nova, que vem se manifestando cada vez mais e mais em pessoas da sua idade. Os primeiros pacientes começaram a aparecer há alguns anos, todos, por coincidência ou não, nascidos por volta do começo dos anos noventa - alguns antes, claro, mas raras exceções. Via de regra, dos noventa pra cá. Todos afogados na cultura do consumo. Todos enfiados, à força, nas redes sociais e na comunicação instantânea. Todos forçados à felicidade imediata e líquida. Todos criados num mundo à prova de tristeza ou mágoas, regado a sorrisos compartilhados em mídias eletrônicas e presos a uma noção plástica de felicidade.
Ajeitou os óculos de armação fina, as linhas de seu rosto severo agora mais duras que as estátuas da Ilha de Páscoa:
- Igor, temo que você sofra do que alguns colegas meus chamam de "O Mal do Século XXI". Um fenômeno onde as pessoas vivem tão isoladas em si, mas tão conectadas com outras, que todo relacionamento é efêmero. Um fenômeno onde a obrigatoriedade da alegria cria, de fato uma sensação de alegria quase genuína, porém passageira. O quê você tem, Igor, é vontade de estar vivo em um mundo, efetivamente, vivo. Ora, se a felicidade é plástica, a Tristeza só pode ser de carne e osso. Podemos dizer que sua compulsão em criar e sustentar sua tristeza não é nada senão seu grito de liberdade. É sentir dor, sentir-se sufocado, para sentir-se vivo num mundo anestesiado.
Tristão colocou a caixa de remédios sobre sua mesa, apoiou-se na mesma e concluiu:
- Não, não é depressão. É algo mais profundo. É uma patologia da alma, não da mente. E, temo lhe informar, por mais avançada que a medicina esteja, por mais avançada que a psicanálise esteja... Igor, seu problema não é de ordem médica. Seu problema está ligado às relações inter-pessoais da sociedade e a toda configuração psicológica da mesma. A onde pertence Igor, nesse tempo? A onde pertence Igor, nessa sociedade?
O seu problema, Igor, não possui cura.

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